25 de mai. de 2020

Lendo o Brasil: ACRE – Varanda de pássaros (Jorge Tufic)


Livro de estreia do poeta e o primeiro título publicado pela geração Madrugada. O autor busca marcar, com este livro, o conteúdo existencial e reflexivo em sua poesia. Um livro muito pequeno, li em uma hora. Não tenho muito o que falar, somente que valeu a pena para conhecer o estilo de escrita de um autor que eu desconhecia.

Editora Valer.
64 páginas.

22 de mai. de 2020

198 livros: IRLANDA – O livro das coisas perdidas (John Connolly)

David é um garoto normal, que vê a mãe morrer aos poucos, de uma doença incurável. Ele tenta fazer de tudo para que ela melhore, seguindo rituais próprios (TOC), mas mesmo assim, sua mãe falece. Sem saber direito como lidar com a perda, ele se refugia em seus livros, um amor que sua mãe passou para ele. Depois de um tempo, seu pai conhece Rose e eles se apaixonam. Quando Rose engravida, David é obrigado a ir morar com o pai na casa da família de Rose, fato que ele odeia tanto quanto odeia a madrasta, mesmo que ela tente fazer com que eles se dêem bem. Quando seu irmão Georgie nasce, a situação na casa piora. Durante uma briga com Rose, sem ter como se defender para o pai, ele escuta a voz da mãe chamando-o e segue até um buraco no jardim, onde ele deve entrar para buscá-la, pois ela diz que está viva. E assim David o faz, indo parar em um mundo totalmente diferente, cheio de riscos.


Esse livro foi uma completa surpresa, do início ao fim. A única coisa que geralmente poderia deixar o leitor em suspenso seria a morte da mãe de David, mas como isso é anunciado desde o início, não existe muita surpresa. O mundo estranho no qual David vai parar, esse sim, guarda milhares de expectativas. Quando você pensa que ele já está seguro, acontece algo para mostrar que o menino ainda tem muito chão pela frente. Eu fiquei um pouco chocada com as mortes, não com o fato de terem mortes, mas o jeito como o autor as escreveu, sem rodeios e sem drama, coisa que não se costuma ver em livros infantojuvenis. As motivações do Homem Torto foram outra surpresa, e apesar do personagem não ser nem de longe alguém de bom caráter, eu gostei de sua história. Mais uma vez, tirei uma leitura muito prazerosa de um livro que, sabe Deus por quê, eu deixei na estante por tanto tempo. Recomendo.

Editora Bertrand Brasil.
364 páginas.

20 de mai. de 2020

Fogo & sangue (George R.R. Martin) – DLLC 2020


Título: Fogo & sangue
Autor: George R.R. Martin
Mês: Maio
Tema: Um livro que se passa em diferentes reinos
Editora Suma, 595p.

A casa Targaryen foi a única família de domadores de dragões a sobreviver a Perdição de Valíria, quando todo o seu continente foi tomado por desastres naturais e cataclísmicos que destruiu todo o império. Eles tomaram residência em Pedra do Dragão, em Westeros e anos mais tarde, um descendente desta casa, Aegon Targaryen e suas irmãs-esposas, Visenya e Rhaenys resolve unificar os sete reinos de Westeros. Grandes guerras acontecem, as quais os Targaryen vencem com a ajuda de seus dragões e submetem seis dos sete reinos. Os filhos de Aegon o sucedem ao trono, assim como seus netos, e cada reinado é marcado por lutas desavenças. Mas também existiram bons reis, que prezaram pela paz, justiça e desenvolvimento do reino. O último e mais bem sucedido reinado foi de Jaehaerys e Alysanne, da descendência de Aegon e Rhaenys, mas também foi durante esse tempo que foram plantadas as sementes de uma guerra civil que mais tarde irá virar irmã contra irmão e culminará na morte e declínio dos últimos dragões do mundo.

Desde o lançamento desse livro, eu vi várias citações e discussões que só fizeram aumentar minha curiosidade. O que muitas pessoas tinham em comum sobre o livro é que a história é incrível, e é mesmo. Eu não li antes O mundo de gelo e fogo, que é outro livro que traz a história dos Targaryen, mas já vi por auto, e esse livro traz com muito mais detalhes a chegada de Aegon a Westeros, mas pára nos acontecimentos da infância de Aegon, o Indigno. Como esse é intitulado de volume I, fiquei muito ansiosa para saber quantos volumes serão (até porque eu assumo que a história vá até a guerra que terminou com a morte de Rhaegar Targaryen. Completamente recomendado.

18 de mai. de 2020

We can be mended (Veronica Roth) – DLS 2020


Título: We can be mended
Autora: Veronica Roth
Mês: Maio
Tema: Um livro com enredo futurista
Editora Katherine Tegen Books, 29p.

Cinco anos depois do fim da guerra, Tobias ainda luta para entender e superar seus medos. No mundo atual agora convivem juntos moradores periféricos, ex-membros da facção, exilados e migrantes. É um mundo novo e melhor - um mundo em que ele não sabe ao certo como pertencer. Como todo mundo parece seguir em frente, Tobias ainda é assombrado por aqueles que não puderam. Mas novas conexões de velhos amigos o ajudam a começar a curar - e a consertar.

Interessante o que acontece com Tobias. Achei bom a autora não deixar com que ele ficasse eternamente de luto pela Tris, e logo de início se percebe o que acontece com ele e Cristina. Mesmo assim, a história ainda deixa algo a se imaginar entre eles, por isso eu curti. Gostaria que fosse um ebook maior só um pouco (ele tem só 29 páginas). Recomendado.

15 de mai. de 2020

A princesa e o cavaleiro (Osamu Tezuka) – DLL 2020


Título: A princesa e o cavaleiro
Autor: Osamu Tezuka
Mês: Maio
Tema: Um livro de autor japonês ou chinês
Editora JBC, 90p.

Depois de escapar da prisão, Safiri tenta libertar sua mãe, mas as coisas dão errado e a rainha se vê presa em um encantamento que a transformou em pedra em uma ilha. Para salvar a mãe, Safiri acaba sendo obrigada a aceitar a ajuda do Capitão Blood, um famoso pirata. Mas ele não vai fazer isso de graça, agora que sabe do segredo que ela guarda....

Continuando a história de Safiri e suas tentativas de não deixar seu reino cair nas mãos de inimigos, esse volume traz um novo personagem, o pirata, e agora fiquei curiosa para saber se até o fim terá algum tipo de triângulo amoroso, dado o interesse de Safiri... Quero muito terminar essa história (ainda faltam 4 volumes) para ler a continuação, sobre os filhos de Safiri. Indicado.

13 de mai. de 2020

O manual do bruxo (Allan Zola Kronzek e Elizabeth Kronzek) – DLL 2020


Título: O manual do bruxo: um dicionário do mundo mágico de Harry Potter
Autores: Allan Zola Kronzek e Elizabeth Kronzek
Mês: Maio
Tema: Um livro que você não terminou
Editora Sextante, 317p.

Amuletos, bicho-papão, centauro, duende, elfo, fênix, grindylow, hipogrifo, Leprechaun, manto da invisibilidade, Nicholas Flamel, poltergeist, runas, sinistro, trasgo, unicórnio, veela,... esses são só alguns dos nomes de criaturas, objetos e qualquer coisa mágica presente nos livros de Harry Potter. Neste manual, os autores mostram que cada um tem raízes em lendas, literatura ou fatos reais.

Esse foi um dos primeiros livros que tinham como tema o estudo das fontes que inspiraram a criação do mundo de Harry Potter. É efetivamente um dicionário, porque aborda as origens e os significados dos personagens e de coisas mágicas presentes nos livros de J.K. Rowling, além de trazer umas ilustrações típicas de livros antigos, o que faz parecer realmente um livro antigo. Ficou um bom tempo parado na minha estante, mesmo eu tendo começado a ler na época que comprei, mas fiquei feliz de retomar a leitura agora. Recomendo.

11 de mai. de 2020

Garnet’s story (Amy Ewing) – DLL 2020


Título: Garnet’s story
Autora: Amy Ewing
Mês: Maio
Tema: Um livro de distopia
Editora Walker, 79p.

Garnet é o típico playboy. Herdeiro da Casa do Lago, sua vida se resume a festas, álcool, curtição com qualquer mulher que lhe interessa. Sua noite começa como todas as outras, o que muda é o dia seguinte, quando ele é confrontado com o fato de que seu caso na noite anterior, Miss Cyan Grandstreet, agora vai revelar seu “romance” para todos: o pai da jovem pegou os dois no flagra e Garnet, bêbado, fez todo tipo de promessa que não vai poder cumprir. Lucien, o eunuco que trabalha para sua mãe, promete que nada sobre essa história será vazada, contanto que Garnet ajude Lucien a vigiar Violet, a nova substitua de sua mãe. Enquanto o jovem tenta cumprir o trato com Lucien, ele tem que lidar com o casamento que sua mãe arranjou para ele, e é durante sua festa de noivado que Garnet percebe o quanto as pessoas que o cercam são vazias e superficiais, e a partir daí começa a se questionar sobre o que está realmente acontecendo ao seu redor.

Eu adorei esse ebook. O final de A jóia traz essa revelação de Garret envolvido no que quer seja o plano de tirar Violet da casa dele, mas não dá pra se saber o quanto ou como tudo começou. Na verdade, foi bem clichê, o riquinho mimado que finalmente percebe que o mundo vai além das conveniências nas quais foi criado. Estou curiosa agora para saber se ele pelo menos sobrevive até o fim da história, já que com distopia, nunca se dar para saber quem sobrevive, e as mortes geralmente surpreendem. Recomendo.

8 de mai. de 2020

William and Kate (Christopher Andersen) – DLL 2020


Título: William and Kate
Autor: Christopher Andersen
Mês: Maio
Tema: Um livro que seja o segundo não lido da sua estante
Editora Gallery Books, 320p.

Eu digo a William, particularmente, que se você encontrar alguém que ama na vida, deve se apegar a esse amor e cuidar dele. . . . Você deve protegê-lo. Diana, princesa de Gales

A história do romance entre o Príncipe William, um dos jovens solteiros mais cobiçados do mundo, e Catherine Middleton, sua colega e namorada de faculdade. Durante quase 10 anos de um namoro que começou quando eles estudaram na Escócia, William e Catherine passaram por poucas e boas. Ele terminou o curso e virou militar, tendo que manter seus compromissos reais. Ela se formou e tentou balancear uma carreira e um relacionamento com o terceiro na linha de sucessão do trono britânico, tarefa que não foi nada fácil, pois ela também teve que lidar com o escárnio da mídia. A infância e a vida de William e Catherine, os percalços de suas famílias, o namoro e o término, a reconquista até o noivado, anunciado para o mundo todo, com a noiva usando o famoso anel de safira da princesa Diana.

Eu gostei mais de outras biografias que li sobre o romance de William e Kate. Christopher Andersen escreve bem, mas em vários momentos o autor acaba esquecendo o tom que uma biografia deve assumir e apela para o lado “fantasioso”, dramatizando certos acontecimentos, e isso me cansou durante a leitura. Como eu já tinha lido outros livros sobre eles dois e visto vários documentários, eu só continuei a leitura desse mesmo porque nunca deixo um livro inacabado. Valeu a pena para saber o estilo de escrita do Andersen.

6 de mai. de 2020

O caminho jedi (Daniel Wallace) – DLL 2020


Título: O caminho jedi: um manual para estudantes da força
Autor: Daniel Wallace
Mês: Maio
Tema: Um livro com duas cores na capa
Editora Bertrand Brasil, 159p.

O manual O caminho jedi foi de posse dos seguintes jedi: Mestre Yoda, Thame Cerulian, Dookan (o sith aprendiz de Sidious), Qui-Gon Jinn (aprendiz de Dookan), Obi-Wan Kenoby (aprendiz de Qui-Gon), Anakin Skywalker (aprendiz de Kenoby), Ashoka Tano (aprendiz de Anakin) até Luke Sktywalker. Com ilustrações muito bonitas de vários artistas, esse livro fala dos jedi, dos seus caminhos de iniciação, seus modos de luta, de que forma eles podem utilizar a força para cura e para luta, assim como no “crescimento das coisas vivas”. Cada um deles deixando suas próprias observações sobre os diferentes tópicos abordados.

Como todos os livros dessa série de manuais (que agora eu creio que sejam Legends), eu gostei muito. Além de falar de tudo que se precise fazer para se tornar um jedi, desde o recrutamento das crianças sensitivas até se tornar cavaleiro e mestre, o livro também fala sobre as outras “profissões” dentro da “carreira jedi” e dos sith. As melhores partes dessa série de livros sempre são as anotações dos personagens, que faz com que nós conheçamos um pouco mais sobre eles. Gostei bastante, muito recomendao.

27 de abr. de 2020

Lendo o Brasil: ESPÍRITO SANTO – Os melhores contos (Rubem Braga)


São 39 contos, mais ou menos curtos, que abordam temas variados, mas principalmente do cotidiano. O livro é um dos menores que já li para esse desafio, então só o que tenho para falar é que eu curti. Os contos não tem grandes problematizações ou reviravoltas, e os contos são bem curtinhos. Nunca fui fã do autor, e mesmo já tendo visto obras deles nas bibliotecas onde trabalhei, ainda não havia me interessado em ler. Valeu a pena para conhecer.

Editora Global.
162 páginas.

24 de abr. de 2020

Lendo o Brasil: SANTA CATARINA – Diário de classe (Isadora Faber)

Sinopse: Aos 13 anos, Isadora Faber, uma estudante de escola pública de Florianópolis (SC), indignada com os problemas de ensino e infraestrutura de seu colégio resolveu criar uma página no Facebook, o Diário de Classe, para denunciá-los. Chamou a atenção da imprensa nacional e internacional, mobilizou milhares de seguidores e conseguiu as mudanças que reivindicou. Sua jornada, no entanto, foi árdua: sofreu críticas, ameaças, represálias, agressões e processos. Porém, não desistiu, e hoje tem mais de 625 mil seguidores, inspirou a criação de mais de cem Diários de Classe, já participou de inúmeras palestras e eventos, ganhou prêmios e fundou a ONG Isadora Faber, com a qual continua seu trabalho por uma educação pública de qualidade no Brasil. Mais que um relato de coragem e do poder do webativismo, este livro é um retrato perturbador da situação da educação e dos serviços públicos brasileiros, que grita por cidadania e por transformações urgentes.


Encontrei esse literalmente por pura sorte. Eu já tinha outros autores em mente de indicações que peguei, mas encontrei esse e tive que deixar os outros de lado. Depois que vi que ele tinha uma boa pontuação no skoob, fiquei mais curiosa ainda. Achei o máximo uma garota de 13 anos simplesmente colocar a boca no trombone sobre tudo que via de errado em sua escola. Melhor ainda quando conseguiu visualização tanto aqui dentro quanto lá fora (porque parece que a coisa só toma jeito depois que cai nas mãos da imprensa, isso é triste). Também achei muito bacana o posicionamento dos pais dela, que a apoiaram em tudo. Valeu muito a pena essa leitura, serve como reflexão para o que nós andamos fazendo (nos acomodamos ou nos mexemos para conseguir as mudanças que queremos?). Completamente indicado.

Editora Gutenberg.
272 páginas.

22 de abr. de 2020

198 livros: IRÃ – Persépolis (Marjane Satrapi)

Marjane Satrapi nasceu em uma família politizada e moderna, o que fez com que ela desde pequena fosse engajada. Aos 10 anos de idade, ela passa a usar o véu, sem saber porque exatamente, e passa a testemunhar o início de uma revolução islâmica, quando o regime xiita começa a ser “implantado” em países como o Irã (antiga Pérsia). Temerosos da situação no país, seus pais a mandam para estudar fora. Na Áustria, ela fica chocada com os costumes ocidentais, mesmo que, para os padrões, sua família fosse considerada liberal. Ao voltar para o Irã na tentativa de reencontrar sua identidade, ela vê os atos de resistência da população.


Como é um livro biográfico em formato de HQ, fica fácil e complicado ao mesmo tempo fazer uma resenha sem dar spoiler. Fácil porque é biografia, e complicado porque como HQ a história fica mais “resumida” do que se fosse contada em forma de texto, o que pode levar a se falar dela mais do que se deve... O que eu tenho que dizer com certeza é que as histórias são de fácil entendimento, e o ponto forte fica por conta da arte gráfica, que se inspira na arte persa. Outro chamariz é que a autora não se prende a falar somente do Irã da sua época, mas também aborda bastante sua história antiga. HQ pra lá de recomendada.

Editora Companhia das Letras.
352 páginas.

20 de abr. de 2020

A guerra não tem rosto de mulher (Svetlana Alexievich) – DLS 2020


Título: A guerra não tem rosto de mulher
Autora: Svetlana Alexievich
Mês: Abril
Tema: Um livro de um autor vencedor ao nobel de literatura
Editora Companhia da Letras, 392p.

Vou dizer o seguinte: sem ser mulher não dá para sobreviver na guerra.

Elas foram atiradoras de elite e enfermeiras. Desarmaram minas terrestres e bombas. Foram pilotas, médicas de campo, oficiais de comunicação. Estas mulheres combateram com os filhos nas costas. Em relatos curtos e médios (às vezes contidos e não tão honestos), a autora fala que as mulheres tiveram que lidar com piolhos, lama e sangue, que endurecia e causava bolhas (já que elas não tinham como trocar de roupa). Esses relatos dão voz a história das mulheres que lutaram no exército vermelho durante a Segunda Guerra Mundial.

A vila da minha infância depois da guerra era feminina. Das mulheres. Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que isso ficou comigo: quem conta a guerra são as mulheres. Choram. Cantam enquanto choram.

OMG! Depois de ler Vozes de Tchernóbil, achei que estava preparada para mais um livro desta autora. Até porque não é a primeira vez que leio um livro sobre guerra. Não achei que fosse possível, mas esse livro conseguiu me chocar mais do que o primeiro. Foi difícil até resenhar, dada a quantidade de questionamento que ficou na minha cabeça depois que terminei de ler. O relato é brusco, fala com uma franqueza absoluta sobre o efeito da guerra na vida dessas mulheres. Mesmo assim, não se ignora o lado feminino delas (elas queriam estar bonitas). Um livro completamente arrebatador, muito recomendado.

17 de abr. de 2020

O tigre branco (Aravind Adiga) – DLL 2020


Título: O tigre branco
Autor: Aravind Adiga
Mês: Abril
Tema: Um livro de autor indiano
Editora Pocket Ouro, 331p.

Balram nasceu em uma casta de doceiros na Escuridão, uma parte pobre da Índia. Cansado da vida de pobreza, ele “ascende” socialmente e vira um “empresário” de sucesso, enquanto também vira um procurado pela polícia e coloca sua família em risco. Em sete noites, ele escreve uma carta ao primeiro-ministro chinês contando como ele descobriu o caminho para o seu sucesso, ao jeito de um tigre branco.

Esse livro não foi nada do que eu esperava ou imaginava, como acontece com a maioria desses escritores internacionais com os quais eu tenho contato uma vez ou outra. Muito bem escrito, o livro traz uma crítica a situação social e moral da Índia, a narrativa traz um humor negro forte. O personagem falando de si é ao mesmo tempo cínico e divertido, porque ele simplesmente não tem medo de se expor. É sempre bom encontrar livros com histórias que desmistifiquem certos lugares, como foi o caso desse, que afastou aquela ideia que temos do misticismo que envolve os indianos que a mídia nos passa. Só por isso, o livro já valeria a pena. Recomendado.

15 de abr. de 2020

Infiltrado na Klan (Ron Stallworth) – DLL 2020


Título: Infiltrado na Klan
Autor: Ron Stallworth
Mês: Abril
Tema: Um livro com um personagem negro
Editora Seoman, 207p.

Se um homem negro, auxiliado por um punhado de brancos e judeus bons, decentes, dedicados, de mente aberta e liberais, pode conseguir prevalecer sobre um grupo de racistas brancos, fazendo-os parecer os idiotas ignorantes que realmente são, então imagine o que uma nação de indivíduos que compartilham das mesmas ideias pode conseguir. [...]

Ron Stallworth foi o primeiro detetive negro de Colorado Springs, Colorado, EUA. Em 1970, ele decidiu participar do programa de cadetes do Departamento de Polícia, que recrutava minorias. Tendo consciência de que ele sofreria ofensas de todo tipo devido a sua cor de pele, Ron começa a trabalhar numa operação que se tornaria muito importante e onde ele conseguiria um feito inédito: um policial negro se infiltrando na Ku Klux Klan. 
Sua carreira começa ao investigar os Panteras Negras, cujo líder, Stokely Carmichael, estaria em Colorado Springs para um discurso. Como o único negro no departamento, Stallworth era o único policial negro que poderia se infiltrar e trabalhar disfarçado. Três anos depois, ele encontra um anúncio no jornal da KKK recrutando cidadãos. Ele liga para o telefone do anúncio e começa aí uma investigação muito interessante. 
Na época, a KKK buscava novos participantes, se declarando como uma organização não-violenta (mesmo pregando ódio aos judeus, negros todo tipo de intolerância). Com ajuda de todo o departamento, Ron conseguiu se infiltrar com sucesso, mesmo tendo que usar o rosto de Chuck, um policial que trabalhava disfarçado em Narcóticos, e começou suas conversas com David Duke, presidente da Ku Klux Klan.

É importante para mim explicar que David Duke foi e é um homem cujo nome até hoje é sinônimo de ódio no atual cenário político e midiático. Um homem que logo me consideraria um “amigo”. [...]
A aparência dele era a de um típico garoto americano que toda mãe desejaria como acompanhante de sua filha no baile de formatura. Ele sempre estava bem arrumado, era bem-comportado (pelo menos em público), articulado e instruído, com um mestrado. Sua aparência de doutor Jekyll desmentia a personalidade de senhor Hyde e seu ponto de vista em questões raciais comuns ao âmago do clima social e político dos Estados Unidos. Publicamente, ele não falava sobre ódio, mas sobre herança e história. Ele gerou um novo racismo para as massas de direita, que unia a antipatia aos negros e outras minorias à insatisfação geral com o governo e ao medo de um mundo complexo em constante mudança.

Eis o posicionamento de Duke:

Como ele afirmou num artigo da revista Oui, por volta de 1979, “Eu não estou pregando a supremacia branca”, embora tenha dito que acreditava firmemente que os brancos são superiores aos negros e outras minorias. “Eu estou pregando o separatismo branco. Gostaria de ver todos os negros voltarem para a África, que é o lugar a que pertencem, mas eu estaria disposto a dar a eles parte deste país — alguns estados, talvez — contanto que tivessem uma sociedade separada.”

Esse livro foi minha primeira opção para o desafio. Comprei ano passado, quando queria ter visto o filme que indicou Adam Driver ao Oscar, mas acabou não chegando aqui. Vi o filme antes de ler o livro, então fiquei esperando uma adaptação (livro para filme), mas não. O livro conta sim a história do filme (um policial negro que se infiltra na Ku Klux Klan), mas dá muito mais detalhes. Foi bom descobrir a quantidade de coisas que eles descobriram na época sobre a Klan e o grau de burrice dos integrantes do grupo, cegos pela própria ignorância e prepotência. De certa forma, esse livro me lembrou muito um que eu li ano passado, A lista de Schindler, e de como foi fácil para Mietek Pemper desmentir, acusar e provar os relatos de acusação contra Göth e outros nazistas durante o julgamento deles (pois ele trabalhou muito perto de Göth enquanto foi prisioneiro).
Essa foi uma das expressões máximas da burrice do presidente da Ku Klux Klan nessa época:

[...] Às vezes, meus telefonemas a David Duke eram conversas leves e pessoais [...] Às vezes, minha conversa era educativa, com um tom cômico e racista. Uma vez perguntei ao “senhor Duke” (todos se referiam a ele de forma reverente como “senhor”) se ele se preocupava que algum “crioulo” metido a esperto telefonasse para ele fingindo ser branco. Ele respondeu: “Não, eu sempre sei dizer quando estou falando com um crioulo”. Quando perguntei como ele poderia ter certeza disso, ele afirmou o seguinte: “Veja o seu caso, por exemplo. Sei que você é um homem branco puro e ariano pela maneira como fala, pelo modo como pronuncia certas palavras e letras”.

Foi engraçado e até irônico constatar o posicionamento de certos integrantes da KKK que Ron menciona no livro. O que mais me chamou atenção foi o do bombeiro Fred Wilkens:

[...] Wilkens sempre fora claro ao separar suas ações profissionais de suas convicções pessoais, e as autoridades da cidade só podiam expressar seu descontentamento em relação a ele de forma limitada. Conforme afirmou com clareza no artigo da revista Denver, “Como bombeiro, estou numa posição difícil. Existem algumas pessoas que gostariam de me ver perder o emprego. Mas é meu direito constitucional acreditar no que acho ser certo, e vou continuar dando o máximo de mim para atuar como um bom bombeiro. Meu trabalho é proteger as vidas e propriedades de todos os cidadãos, tanto brancos como grupos minoritários. É exatamente isso o que vou fazer. As pessoas me perguntam se sou racista e eu digo que depende de como você define a palavra. Se você a define como alguém que odeia raças, eu definitivamente não sou. Se a define como alguém que ama sua própria raça, então com certeza sou”. [...] 
Como Duke, ele queria popularizar a Klan, afirmando que “a Klan não deseja se opor ou suprimir qualquer raça, mas acredita que, para cada um desenvolver seu pleno potencial, elas deveriam fazê-lo separadamente. Por isso, a Klan é totalmente contra a integração racial e o casamento inter-racial... uma separação total das raças para benefício mútuo”.

Um dos momentos mais divertidos do filme e (para minha surpresa) do livro também é o momento em que o verdadeiro Ron Stallworth, atuando como segurança de David Duke, pede uma foto, enquanto Chuck, o falso Ron, é quem tira a foto. No livro, essa parte conseguiu ser mais tensa e transmitir toda a posição racista KKK. Me surpreendi de várias maneiras lendo esse livro, e todas de forma muito positiva. Leitura muito indicada.

13 de abr. de 2020

Cranford (Elizabeth Gaskell) – DLL 2020


Título: Cranford
Autora: Elizabeth Gaskell
Mês: Abril
Tema: Um livro clássico da literatura
Editora Pedrazul, 214p.

Cranford é uma cidade (fictícia) da Inglaterra do século XIX que é dominada pelas mulheres, solteironas ou viúvas.

[...] Se um casal se muda para a cidade, por algum motivo, o cavalheiro acaba desaparecendo; ou ele se assusta por ser o único homem presente nas festas de Cranford, ou se vê envolvido com seu regimento, navio, ou cuidando de negócios a semana inteira em Drumble, a grande cidade comercial vizinha, que fica à distância de 20 milhas de trem. Resumindo, seja lá o que aconteça com os homens, eles não ficam em Cranford. [...]

Mary Smith é uma visitante de Cranford, para onde sempre vai visitar suas amigas. Os homens em Cranford nunca são da alta sociedade, somente as mulheres. Elas vivem com dignidade com os poucos recursos que tem, mantendo regras de etiqueta que tentam seguir a risca.

Não sei se é porque eu sempre fico esperando uma história como o romance entre Mr. Thornton e Margareth, mas não consigo pegar o embalo de outros livros de Elizabeth Gaskell. Não me entendam mal, Cranford é um livro bom, mas eu sempre fico comparando com Norte e Sul, o que é errado e acaba tirando o mérito do outro, mas acabo fazendo isso inconscientemente. Talvez por isso não tenha conseguido aproveitar essa leitura da forma que deveria. Eu me diverti em algumas partes e gostei da simplicidade da história. Mas ficou nisso.

10 de abr. de 2020

Nós quatro e o amor (Fabiane Ribeiro) – DLL 2020


Título: Nós quatro e o amor
Autora: Fabiane Ribeiro
Mês: Abril
Tema: Um livro que comece com a primeira letra do seu nome
Editora Universo dos Livros, 303p.

Patrícia e Laura são melhores amigas. Elas conhecem Matthew e Diego num bar à beira de um lago quando Patrícia volta para os Estados Unidos depois de passar um tempo no Brasil. Os quatro se dão bem logo de cara. Patrícia, uma odontóloga com um grande segredo, se identifica com o biotecnólogo Matthew, cujo passado é cheio de traumas, enquanto Laura, artista plástica com más relações familiares, se identifica com Diego, o dançarino colombiano que não fala sobre seu passado. A amizade entre eles evolui, mas a relação entre os casais acabam se complicando quando outras ligações entre eles surgem. Um sério acidente com Matthew faz com que os quatro amigos reavaliem suas vidas.

Como não podia deixar de ser com um livro da Fabiane Ribeiro, essa história é carregada de emoções. A relação entre os amigos começa simples, e eu achei que fosse continuar assim, mas ela consegue dar uma reviravolta na história, não só pelos novos rumos nos relacionamentos, mas pelos próprios segredos dos personagens. Algumas situações eu torci para serem revertidas, mas no conjunto, gostei que ficaram “mal resolvidas”, porque, afinal, é isso que acontece na vida real. Li em pouco tempo, completamente indicado.

8 de abr. de 2020

Olimpíadas da biblioteca do Sr. Lemoncello (Chris Grabenstein) – DLL 2020


Título: Olimpíadas da biblioteca do Sr. Lemoncello
Autor: Chris Grabenstein
Mês: Abril
Tema: Um livro de capa roxa ou lilás
Editora Bertrand Brasil, 285p.

Depois de ganharem a competição promovida pelo bilionário excêntrico Luigi Lemoncello, o time Kyle ficou famoso. Kyle e seus amigos estrelam os comercias dos jogos do inventor, e parecem curtir toda a atenção que recebem. Só que não são todas as pessoas que estão felizes com o sucesso do grupo. Muitas pessoas acham que o jogo na biblioteca não foi justo e que deveria ter abarcado mais gente. Quando o Sr. Lemoncello anuncia a realização de uma olimpíada na biblioteca, cujo prêmio são os estudos da faculdade pagos, jovens dos 50 estados norte-americanos se unem para a competição. Enquanto isso, o bilionário tem que lidar com um grupo de fanáticos que não acham que as inovações na biblioteca deveriam existir, e visam conseguir uma maneira de gerenciar a biblioteca.

Adorei! Uma continuação tão boa que me fez ir atrás da editora para saber se e quando os livros da série serão publicados aqui (a resposta foi que no momento, não). Gostei do autor utilizar na narrativa os pontos de vista de vários personagens, ao invés só de Kyle e seu time. Para quem gosta de bibliotecas, o livro é um chamariz porque acaba tratando da questão de como uma biblioteca deve se posicionar no tempo em que é criada. Ela deve só servir como lugar de leitura e empréstimo de livros (o objetivo do grupo chato que passa o livro perturbando o Sr. Lemoncello) ou deve inovar para chamar atenção e trazer cada vez mais pessoas? Adorei a leveza com que o autor trata essa situação. Livro muito recomendado.

23 de mar. de 2020

Lendo o Brasil: PARAÍBA - O auto da compadecida (Ariano Suassuna)

A peça, dividida em duas partes, traz de volta elementos do teatro popular e da literatura de cordel para exaltar o povo humilde e satirizar os poderosos e os religiosos. A história se desenvolve em torno das trapaças de João Grilo (que engana até o diabo) e Chicó.


Não dá para falar muita coisa sobre as loucuras de João Grilo sem dar spoiler, então o que dá para falar é que este é um livro fino e agradável de ler, apesar da dificuldade absurda que eu tenho em ler esse tipo de livro, mas valeu. Já tinha ouvido falar muito, vi a adaptação para o cinema (que eu adorei), então só me faltava ler o livro. As alfinetadas que o autor dá nos poderosos são ótimas e a forma como ele fala das misérias humanas é muito real. Valeu a pena.

Editora Nova Fronteira.
192 páginas.

20 de mar. de 2020

198 livros: ANTÍGUA E BARBUDA – A small place (Jamaica Kincaid)

O livro inicia com a autora incentivando o leitor a conceituar “ser um turista” em Antígua, explicando muitas coisas no caminho para o hotel, como os laços históricos das mansões (ela considera esse luxo um disfarce para a escravidão pós-colonial). Ela explica porque os nativos não gostam de turistas, relembra sua infância e porque era melhor nessa época, além de explicar os efeitos do colonialismo ainda evidentes em diferentes formas, expressando-se à sua frustração em relação aos colonialistas por trás de suas várias máscaras. A melhor parte é a quarta, quando ela descreve a beleza de Antígua e de seu povo.


Achei esse livro por pura sorte e como não conhecia a autora (e como foi o único que consegui encontrar para o país do mês), arrisquei. É um livro pequeno, um ensaio na verdade, dividido em quatro partes escrito como se fosse uma conversa entre a autora e o leitor. Em toda a narrativa, fica aparente sua ousadia nas críticas que ela faz ao sistema e ao governo.

Editora Farrar, Strauss and Giroux.
81 páginas.

18 de mar. de 2020

Tio Patinhas e Pato Donald (Don Rosa) – DLLC 2020


Título: Tio Patinhas e Pato Donald: o filho do sol
Autor: Don Rosa
Mês: Março
Tema: Um livro com animais falantes
Editora Abril, p.

No primeiro volume da coleção Biblioteca Don Rosa, Tio Patinhas, Pato Donald, Hughinho, Zezinho e Luisinho embarcam em uma caçada em busca de um antigo e misterioso tesouro inca. Além da história que encabeça o título do volume, esta edição traz outras histórias, o “making of” dessas histórias, várias capas e uma biografia sobre Don Rosa.

Eu sou completamente apaixonada por essas coleções em capa dura que a editora Abril lançou da Disney. Vivo louca para completar todas elas, e confesso que andei meio preocupada desde que a editora abriu falência, mas agora que a Panini assumiu as publicações (inclusive já tem um novo volume saindo), me acalmei. Esse é o primeiro volume da coleção Biblioteca Don Rosa, que é um dos melhores artistas de quadrinhos Disney. A edição é primorosa, capa dura, de uma qualidade ímpar. Outra coisa que me fez gostar muito é que eu não conhecia nenhuma dessas histórias, e passei a vida lendo quadrinhos Disney, então a surpresa foi muito boa. Completamente recomendado, seja você fã do pato mais rico do mundo e seu sobrinho encrenqueiro ou não.

16 de mar. de 2020

Caçadores de obras-primas (Robert M. Edsel) – DLS 2020


Título: Caçadores de obras-primas
Autor: Robert M. Edsel
Mês: Março
Tema: Um livro que virou filme ou série de TV
Editora Rocco, 524p.

[...] Para a maioria dos soldados, guerra era uma circunstância. Mas para alguém como James Rorimer, era a missão de toda uma vida. Hitler tinha dado o tiro de advertência no mundo das artes em 1939, quando a blitzkrieg da Polônia incluiu unidades encarregadas do roubo deliberado de peças de arte e da destruição dos monumentos culturais daquele país. O evento divisor de águas veio logo depois, quando os nazistas capturaram o retábulo Veit Stoss – um tesouro nacional polonês – e o levaram para Nuremberg, na Alemanha. [...]

Durante a Segunda Guerra Mundial existiu um grupo de soldados chamados Monuments Man responsáveis por dificultar ou impedir que os nazistas comandados por Hitler roubassem ou destruíssem obras de artes e monumentos históricos espalhados pela Europa. A estimativa é que em sua campanha para transformar a Alemanha no centro no novo reich, os nazistas tenham se apossado de mais de 5 milhões de objetos de vital importância para a cultura mundial.
Obras famosíssimas foram roubadas de museus e colecionadores particulares, principalmente judeus. No início, o trabalho dos Monuments Man era diminuir os dados causados as bibliotecas, museus e arquivos, mas o avanço das tropas de Hitler levaram esses homens a localizarem os objetos perdidos ou roubados, e no fim da guerra, a devolvê-los.

Eu já havia lido um livro sobre esse tema, Salvando a Itália, para outro desafio esse ano, então já sabia como funcionava o trabalho dos MM. A diferença é que neste livro de agora, o foco não está focado em um país só. A pesquisa de Edsel engloba a ação desses soldados na França, Bélgica e a própria Alemanha. Novamente fiquei impressionada com o nível da pesquisa feita pelo autor, que mostra os nazistas como saqueadores que não tem a verdadeira noção do valor do seu saque, mas também como organizadores de obras de arte, que montaram relatórios sobre os objetos mais valiosos, com seus nomes e de que lugar haviam sido tirados, com o objetivo de facilitar aos oficiais que escolhessem para suas coleções particulares.

Em 1940, Hitler (por intermédio de Goebbels, seu ministro da propaganda) havia encomendando um inventário, mais tarde conhecido como o Relatório Kümmel – nome de seu principal copista, o Dr. Otto Kümmel, diretor geral dos Museus Estaduais de Berlim. O inventário relacionava todas as obras de arte do mundo ocidental – França, Países Baixos, Grã-Bretanha e até os Estados Unidos (que Kümmel disse possuir nove dessas obras) – que por direito pertenciam à Alemanha. Segundo a definição de Hitler, isso incluía todas as obras tiradas da Alemanha desde 1500, todas as obras de qualquer artista de ascendência alemã ou austríaca, todas as obras encomendadas ou terminadas na Alemanha, e todas as obras consideradas feitas em um estilo germânico. O Retábulo de Gand era nitidamente um modelo e emblema definidor da cultura belga, mas para os nazistas era de estilo “germânico” o suficiente para pertencer a eles.

A Adoração do cordeiro místico ou Retábulo de Grand (como é mais comumente conhecido), foi encomendado a Hubert van Eyck e terminado em 1432. Composto de 24 obras individuais com temas associados, a peça completa tem em seu painel central a origem de seu nome, mostrando o Espírito Santo na forma de uma pomba brilhando sobre ele e a multidão em torno.

JAN VAN EYCK, RETÁBULO DE GHENT (interior), 1432. Óleo sobre painel, 3,5 x 4,6 m. Catedral de Saint Bavo, Ghent, Bélgica. Reproductiefonds/photo Hugo Maertens)

Um dos tesouros artísticos mais importantes da Bélgica, seis dos painés do Retábulo haviam pertencido ao estado germânico até o fim da Primeira Guerra Mundal, quando o Tratado de Versalhes obrigou os alemães a entregarem a obra como indenização de guerra à Bélgica. Daí a fixação de Hitler.

Hitler sabia que era impossível roubar obras-primas famosas na escala do Retábulo de Gand sem atrair a condenação do mundo. Embora tivesse a mentalidade de um conquistador – ele acreditava que tinha direto aos espólios de guerra e estava determinado a tê-los –, Hitler e os nazistas tinham feito de tudo para estabelecer novas leis e procedimentos a fim de “legalizar” as atividades de pilhagem que se seguiriam. Isto incluía obrigar os países conquistados a lhes darem certas obras como termo de rendição. Países do Leste Europeu como a Polônia estavam destinados, segundo o plano de Hitler, a se tornarem desertos industriais e agrícolas, onde escravos eslavos produziriam bens de consumo para a raça dominante. A maior parte dos ícones culturais foi destruída; seus grandes prédios arrasados; suas estátuas derrubadas e derretidas para fazer balas e bombas de artilharia. Mas o Ocidente era a recompensa da Alemanha, um lugar para arianos desfrutarem os produtos de sua conquista. Não havia necessidade de privar esses países de seus tesouros artísticos – pelo menos não de imediato. O III Reich, afinal de contas, duraria mil anos. Hitler deixou intocadas obras de estatura comparável a do Retábulo de Gand, tais como Mona Lisa e A ronda noturna, mesmo sabendo exatamente onde estavam escondidas. Mas ele cobiçava o Cordeiro.

Tenho que dizer que duas coisas me impressionaram nesse livro: o fato de ter uma mulher fazendo de um tudo na França para evitar o roubo das artes, e quando isso não foi possível, para descobrir para onde os objetos roubados haviam sido levados. Seu nome era Rose Valland, que trabalhava no Jeu de Paume e serviu como espiã para Jacques Jaujard, diretor dos Museus Nacionais da França. Rose Valland, com vontade e coragem de ferro, se manteve no museu durante os vários saques, peitando oficiais nazistas e foi responsável por retardar a partida dos últimos trens alemães transportando valiosas obras de arte dos maiores colecionadores particulares franceses.
A segunda coisa foi descobrir que o castelo de Neuschwanstein, obra do rei bávaro Ludwig, construído no século XIX, serviu como ponto de guarda para, dentre outras, 20 mil obras roubadas que passaram pelo Jeu de Paume. Devido a sua localização (ele estava no alto de um afloramento rochoso nos Alpes Bávaros, isolado e quase inacessível aos veículos modernos), os Monuments Men levaram seis semanas para esvaziá-lo, utilizando os vários lances de escada (não existiam elevadores).

NEUSCHWANSTEIN, ALEMANHA: (National Archives and Records Administration, College Park, MD)

Por ser mais “completo” e dar um panorama mais geral, ao invés de focar em somente um país, eu aproveitei mais a leitura desse livro. Gostei muito de ver que uma mulher teve um papel ativo na proteção das obras, sem nunca abaixar a cabeça para os desmandos nazistas, mesmo quando sua vida estava em jogo. Também foi interessante ver o trabalho dos Monuments Men dentro da própria Alemanha, mesmo quando os horrores dos campos de concentração nazistas chegaram ao conhecimento dos oficiais aliados e fizeram com que o ódio pela Alemanha aumentasse. Como Salvando a Itália, esse livro é um verdadeiro tesouro para amantes de arte e história. Completamente indicado.

13 de mar. de 2020

A Bela e a Fera (Madame de Beaumont e Madame de Villeneuve) – DLL 2020


Título: A Bela e a Fera
Autora: Madame de Beaumont e Madame de Villeneuve
Mês: Março
Tema: Um livro de autor francês
Editora Zahar, 240p.

Em A Bela e a Fera, de Madame de Beaumont (1756), Bela faz parte de uma família abastada que de repente perde tudo. Ela se conforma com a mudança de vida, mas suas irmãs não. Em uma viagem em que o pai esperava recuperar uma parte de seu dinheiro perdido, ele se perde em uma floresta e vai parar no castelo da Fera, onde é bem recebido e bem alimentado, mas ao partir lembra do pedido de Bela de lhe trazer uma rosa. Ele colhe uma do jardim, mas a Fera fica furiosa e exige que ele entregue uma de suas filhas em troca de sua vida. Bela aceita se sacrificar pelo pai e passa a conviver com a Fera, percebendo que, apesar da aparência monstruosa, a criatura consegue ser simpática e educada. Ela se apaixona e acaba com o feitiço, fazendo a Fera voltar a ser o príncipe de antes.
Na versão de A Bela e a Fera de Madame de Villeneuve (1740), escrita 16 anos antes da primeira versão apresentada neste livro, a história segue o mesmo enredo, mas apresenta novas variações. Bela é na verdade uma princesa perdida, filha de um rei e de uma fada, que foi adotada sem querer no lugar da filha falecida do comerciante. A Fera era um príncipe que foi transformado em Fera não como castigo, mas por uma fada egoísta.

A história todo mundo já conhece, mesmo que seja a versão infantilizada da Disney. Em 2014 lançaram um filme (se não me engano francês) adaptando a versão original dessa história (o pai que no castelo da Fera tenta pegar uma rosa e acaba sendo intimado a levar uma de suas filhas para o monstro em troca de sua vida). Gostei que esse livro traz as duas versões, de Madame de Beaumont e de Madame de Villeneuve, além de textos explicativos sobre cada versão e uma cronologia sobre as vidas das autoras. Em nenhuma das versões existem objetos falantes, e eu poderia estranhar isso se não tivesse visto a adaptação de 2014 várias vezes (afinal, a Disney fantasia bastante, mas mantêm os elementos da história, então eu ainda achava que existiam objetos encantados na história original). As edições da Zahar sempre são um primor, e esse não ficou a desejar. As ilustrações são lindas, a diagramação é de uma qualidade ímpar, e o que eu gostei bastante foi a apresentação sobre a vida de Pedro González, um caso que pode estar nas origens do conto. Livro muitíssimo recomendado.

11 de mar. de 2020

Meghan (Andrew Morton) – DLL 2020


Título: Meghan: a princesa de Hollywood que conquistou a Inglaterra
Autor: Andrew Morton
Mês: Março
Tema: Um livro biográfico
Editora Seoman, 320p.

Sinopse: Quando Meghan Markle e o Príncipe Harry foram apresentados por um amigo em comum em um encontro às cegas, mal sabiam que em menos de dois anos após o primeiro flerte estariam casados. Desde então, nosso fascínio pela mulher que quebrou todos os protocolos reais disparou. Nesta profunda biografia sobre a Duquesa de Sussex, o aclamado escritor Andrew Morton remonta às raízes de Meghan - atriz americana afrodescendente, ativista e feminista. - entrevistando pessoas próximas a ela para descobrir a história de sua infância em Los Angeles, suas lutas em Hollywood e seu trabalho humanitário. Considerada por muitos como a Princesa Diana do século 21, o impacto de Meghan já estabeleceu mudanças nas rígidas tradições da Casa de Windsor ao injetar um sopro de modernidade na realeza britânica.

Eu tenho a biografia escrita pelo Andrew Morton sobre a princesa Diana, então quando vi que ele também tinha escrito uma sobre a esposa do príncipe Harry, me animei. Desde o anúncio do casamento real, passei a me interessar em saber sobre a vida de Meghan Markle, já vi documentários, mas ainda não tinha lido nenhuma biografia (porque quando se trata de biografias reais, eu procuro muito, existem autores que só gostam de dramatizar). Gostei desse livro porque Morton é objetivo, ele fala dos fatos com clareza, não passa para o plano da imaginação sobre coisas que ele simplesmente não tem como saber com clareza como aconteceram. Indicado.

9 de mar. de 2020

A maldição do espelho (Agatha Christie) – DLL 2020


Título: A maldição do espelho
Autora: Agatha Christie
Mês: Março
Tema: Um livro do século passado
Editora Nova Fronteira, 247p.

Marina Gregg é uma famosa atriz de cinema que acabou de se mudar para o vilarejo de Mary Mead, o que faz com que o povo local fique animado com o fato de ter uma celebridade vivendo em seu meio. Marina e o marido resolvem dar uma festa de recepção com amigos do estúdio e com convidados locais, e tudo parece bem, até que uma morte causada por envenenamento acaba com a festa e com a tranquilidade de todos. O mistério maior se deve ao fato de que a pessoa que faleceu foi morta por engano, já que bebeu do copo da própria anfitriã. A partir daí começa uma investigação que revela muito mais da vida de Marina e do meio em que vive do que ela poderia esperar.

Não sei porque, mas os livros da Agatha Christie que tem Miss Marple como protagonista não conseguem chamar minha atenção de cara. Talvez porque os livros de Poirot mostrem ele sendo mais ativo na resolução dos mistérios, o fato é que eu demoro demais para “engatar” a leitura dos livros com ela, e esse foi o segundo que li. Não me conformo com isso, porque Miss Marple é uma personagem ótima, uma senhora idosa com uma mente tão afiada (talvez até mais) quanto a de Sherlock Holmes, e os insights dela sempre são tão misteriosos quanto reveladores. De qualquer forma, eu gostei do livro, o final conseguiu me surpreender de verdade. Indicado.

6 de mar. de 2020

A-LII (Ana Macedo) – DLL 2020


Título: A-LII
Autora: Ana Macedo
Mês: Março
Tema: Um livro de autora brasileira
Editora Literata, 405p.

Em uma Londres apocalíptica, a população é comandada por um governo totalitária chamado de Voz. A-LII é um clone criado em cativeiro, exclusivamente para testes de empresas de cosméticos. Como ela não é considerada uma pessoa, os testes a machucam e traumatizam, mas diferente dos outros clones, A-LII começa a questionar sua existência. Ela acha que está salva quando o Dr. Alec Muniz a tira do laboratório e a leva para a casa dele, mas não sabe que seu sofrimento ainda não acabou. Enquanto isso, Will, um rapaz pobre, vive para trabalhar e sustentar a casa, tendo que lidar com a mãe drogada e o pai bêbado. Quando sua família é assassinada pela Voz, Will foge acaba se juntando aos rebeldes. É a partir daí que os caminhos de Will e A-LII se cruzam e eles resolvem se unir contra o governo.

Confesso que não sabia o que esperar desse livro, além de muita desgraça. A escrita da Ana me surpreendeu, ela é muito boa na criação de uma distopia e sabe como envolver o leitor do início ao fim da história. Esse foi mais um daqueles livros que quando chega no final, você acha que ainda vai ter uma continuação, e fica esperando por isso, apesar do final ser bem construído e ser coerente. Recomendo.

4 de mar. de 2020

A rosa e a adaga (Renée Ahdieh) – DLL 2020


Título: A rosa e a adaga
Autora: Renée Ahdieh
Mês: Março
Tema: Um livro de capa rosa
Editora Globo Alt, 365p.

Sherazade foi resgatada do castelo por Tariq, deixando Khalid para trás. No acampamento onde ela e sua família encontraram abrigo após seu pai fazer o que não devia (e causar uma grande devastação na cidade), a califa descobre que existe um grupo unido para entrar em guerra contra seu marido. Enquanto isso, Khalid está tentando lidar com a destruição da cidade, ajudando onde pode, mesmo que esteja sofrendo sem Sherazade. A moça, tentando evitar uma guerra, faz de tudo para encontrar uma forma de por fim a maldição que cerca o califa.

Gostei bastante dessa sequência. Apesar de ter esperado um pouco mais da história, eu queria saber mais sobre a maldição, sobre o pai da Sherazade e outras coisas, mas acho que por ser uma duologia ao invés de trilogia, a autora deu uma “apertada” na história, deixando algumas coisas sem explicação. O enredo continua sendo rico, traz novos personagens interessantes, e oferece uma resolução boa, mas não muito satisfatória (pelo menos não para mim). Gostei e só queria mais um livro, de qualquer forma recomendo.

24 de fev. de 2020

Lendo o Brasil: SERGIPE – Os desvalidos (Francisco Dantas)

Sinopse: Os desvalidos dá voz aos pobres-diabos, aos rejeitados, que sobrevivem na periferia entre o nascente capitalismo da década de 1930 e o ancestral mundo latifundiário. Anti-heróis que abrem seu caminho com as próprias mãos: Coriolano, Tio Filipe, Maria Melona, Zerramo e o lendário Lampião se ancoram no único lema capaz de lhes dar orgulho e dignidade: o de ser patrões de si mesmos. Lançado originalmente em 1993, Os desvalidos é considerado um retorno de qualidade à linguagem regionalista do sertão nordestino. Com a capacidade de Dantas em trabalhar as temáticas de sofrimento e rusticidade com a linguagem apurada que se assemelha a de clássicos como Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, a obra demonstra a vida sertaneja sob o cangaço, a miséria e o esquecimento, através de personagens notáveis.


Não sei bem o que pensar desse livro. Pelo título, agora que já li, percebo que já devia imaginar como terminaria a história. Nenhum dos personagens termina conseguindo alguma coisa, todos eles sofrem fracassos o tempo inteiro. Mesmo que o início comece do jeito que começa (Lampião invadindo a casa de Coriolano e fazendo com que ele fuja), ainda fiquei esperando alguma reviravolta em que o personagem conseguisse melhorar de vida, mas... De qualquer forma, achei uma leitura interessante.

Editora Alfaguara.
256 páginas.

21 de fev. de 2020

198 livros: EGITO - A garota oculta (Shyima Hall)

Shyima é a sétima filha entre onze filhos. Sua família é pobre, seu pai é um homem violento e sua vida não é fácil. Mas tudo muda para pior quando, aos oito anos de idade, ela é vendida a família para quem sua irmã mais velha trabalha (em um quase sistema de escravidão) para pagar por um erro da irmã. Agora Shyima é empregada: acorda antes de todo mundo, só tem uma refeição por dia e dorme depois de todos. 
Um tempo depois, a família a quem a menina serve se muda para os EUA, mas as coisas melhoram um pouco porque o sistema é outro e a família precisa ter cuidado para que não descubram que Shyima é uma escrava. Em 2002, a vida de Shyima muda de vez quando a polícia aparece para tirá-la da casa depois de uma denúncia, e a partir daí a menina consegue se libertar de seu passado doloroso.


Eu não tinha muita experiência de vida, mas sabia que famílias deveriam permanecer unidas. Pais deveriam cuidar e dar apoio a seus filhos, não vendê-los a estranhos.

Essa história é muito pesada. Quando li a sinopse, imaginei que não seria uma leitura fácil ou divertida, mas o que se encontra nele é muito forte. A vida de pobreza no Egito, o pai violento, depois a venda para a família que se muda e o fato de que ela tem que aguentar todo tipo de humilhação, até mesmo quando já está nos EUA (foi nessa parte que achei que tudo mudaria bem rápido). Foi bom ver que ela conseguiu seguir adiante, deixar para trás as experiências dolorosas da vida. O fato de Shyima falar sobre escravidão no mundo de forma tão pungente torna toda a leitura, de certa forma, mas atrativa porque você percebe o quando isso ainda é muito real. Esta foi uma daquelas biografias que encontrei por sorte e que marcaram muito. Completamente recomendado.

Editora V&R.
248 páginas.

19 de fev. de 2020

O livro do feminismo – DLS 2020


Título: O livro do feminismo
Mês: Fevereiro
Tema: Um livro polêmico
Editora Globo, 352p.

Sinopse: Nasce-se mulher ou torna-se uma? Homens podem ser feministas? Ainda precisamos do feminismo no século XXI? Este livro responde questões como essas e outras ao explorar a luta por igualdade ao longo da história. Escrito em linguagem clara e recheado de imagens, infográficos e boxes que vão direto ao ponto e explicam as teorias mais complexas, O livro do feminismo examina as ideias inovadoras e ações pioneiras que serviram de modelo para esse movimento tão fascinante e diverso. Quer você seja uma feminista desde sempre ou esteja buscando informações sobre o movimento, aqui você vai encontrar muito conteúdo para se inspirar e se engajar.

Desde que começaram a lançar em português os livros da série “As grandes idéias de todos os tempos”, eu passei a pesquisar sobre a coleção lá fora. Até entrei em contato com a editora para saber sobre os livros de Sherlock Holmes, Shakespeare, Arte e Star Trek (eu quero muito que lancem um sobre Star Wars) e do Feminismo. Até tinha conseguido em inglês, mas ficou guardado na estante, então quando vi que seria lançado em português, comemorei. O livro traz uma cronologia muito boa que ajuda a entender o movimento feminista desde o início, assim como as suas quatro ondas e suas variações. Questões polêmicas como aborto e controle de natalidade são muito bem abordadas e até me ajudaram a tirar algumas dúvidas que eu tinha (honestamente, foi a parte que mais gostei do livro). Completamente recomendado.

17 de fev. de 2020

A biblioteca desaparecida (Luciano Canfora) – DLL 2020


Título: A biblioteca desaparecida: histórias da biblioteca de Alexandria
Autor: Luciano Canfora
Mês: Fevereiro
Tema: Um livro de autor italiano
Editora Companhia das Letras, 200p.

Sinopse: Ptolomeu Filadelfo quer reunir todos os livros do mundo; o califa Omar pretende queimá-los todos, salvo o Corão. Entre esses dois sonhos, nasceu e foi destruída a monumental biblioteca de Alexandria, cidade que por mais de mil anos serviu de capitalcultural do Ocidente. Para narrar a história dessa imensa coleção de livros, Luciano Canfora retoma uma antiga técnica dos bibliotecários de Ptolomeu: a montagem e a reescritura das fontes, fundidas numa prosa aparentemente romanceada, mas na realidade baseada, quase frase por frase, em textos antigos. A história da maior biblioteca do mundo se confunde assim com a história dos livros que acumulou e dos livros que a descreveram, como uma última crônica de um erudito bibliotecário de Alexandria.

Fazia tempo que eu queria ler esse livro. Na minha época de faculdade, encontrei uma edição da biblioteca e sempre pegava, mas acabava deixando de lado por causa de outras leituras e dos trabalhos. Talvez ficasse empacado na lista de leitura por mais tempo, se eu não descobrisse (na sorte) que o autor é italiano. Gostei da leitura, apesar de ter sido um pouco complicado se acostumar com a narrativa, porque esse parece ser um desses livros que se usa na hora de escrever artigos e textos acadêmicos. Não é um romance histórico, fica mais para o lado da biografia, mas achei ele bem técnico, apesar do autor falar muito dos maiores momentos do Egito que marcaram a existência da biblioteca. Livro indicado.

14 de fev. de 2020

Vitória (Daisy Goodwin) – DLL 2020


Título: Vitória: a jovem rainha
Autora: Daisy Goodwin
Mês: Fevereiro
Tema: Um livro romance de época
Editora HarperCollins, 398p.

Aos 18 anos, por falta de herdeiros masculinos, a jovem Vitória se torna rainha do império britânico. Sem experiência, tendo passado toda sua vida protegida por sua mãe e sem as noções mais básicas de como governar, agora deve mostrar a todos, principalmente ao seu tio e próximo na linhagem a herdar o trono Duque de Cumberland, que é uma rainha de fato e não uma marionete. Ela encontra um professor e amigo em Lorde Melbourne, mas a proximidade entre os dois incomoda todo mundo, e assim começam a planejar o casamento da jovem com seu primo Alberto, com quem ela não tem afinidade nenhuma. Ou assim Vitória pensava, até encontrar Alberto depois de tantos anos...

Uma pessoa poderia ser uma monarca e uma mulher?

Eu só fui atrás desse livro porque vi que era a novelização da primeira temporada da série, e de fato, é mesmo. A autora, que é a roteirista da série Vitória, da PBS, entrega mais detalhes no livro (foi muito bom estar “dentro” da cabeça de Lorde M. e ver como ele se sentia perto da jovem rainha, na série é muito implícito o que ele sente, e eu sei que deve ter sido dessa forma que os produtores pretenderam construir esse relacionamento entre os personagens, mas foi bom ver a partir da perspectiva dele).

12 de fev. de 2020

Spirit animals: tales of the Great Beats (Brandon Mull, Nick Eliopulos, Billy Merrell, Gavin Brown, Emily Seife) – DLL 2020


Título: Spirit animals: tales of the Great Beats
Autores: Brandon Mull, Nick Eliopulos, Billy Merrell, Gavin Brown, Emily Seife
Mês: Fevereiro
Tema: Um livro de fantasia
Editora Scholastic, 186p.

Feliandor, o rei menino de Steriol, quer ser um bom rei como seu pai, mas parece que seu povo não está contente com ele. Em uma de suas audiências com as pessoas que trazem problemas para serem resolvidos com o rei, ele encontra uma mulher estranha, que lhe entrega um frasco com Bile e lhe dá certas indicações do que fazer se quiser mudar as coisas para si mesmo. Ao tomar o líquido, ele toma para sim um espírito animal, na forma de um crocodilo, e se torna o Rei Réptil.
O espírito animal de Yin é um estorninho, Luan. Quando o irmão de Yin, Yu, fica muito doente, sua família vai atrás da curandeira, mas o que ela oferece está além das possibilidades, pois a cura da doença de Yu pode estar nas mãos da Healthbringer, o Grande Panda, que vive no Grande Labirinto de Bambu. Mas o Grande Panda não é visto há muito tempo, além do perigo que é entrar no labirinto. Mas Yin está decidida, e em troca da espada de sua família, Yin consegue com a curandeira um tipo de tônico, mas a situação de seu irmão não melhora. Os dois resolvem ir até o labirinto e acabam descobrindo um grupo de que quer capturar Jhin, o Grande Panda.
Uraza é um leopardo, umas das Grandes Feras. Em uma de suas caçadas, ele encontra um grupo de invasores e ataca, exigindo que saiam de seu território. Por uma semana, ela não vê mais ninguém, mas depois descobre um grupo de homens, maior que o anterior, que quer capturá-la para roubar algo dela. Em sua arrogância, ela dispensa ajuda do garoto dos Vendani que foi alertá-la, e acaba sendo capturada. O garoto, Tembo, ajuda a libertar Uraza, e ela descobre que os invasores sabem onde ela esconde seu talismã, e assim eles partem em busca do precioso objeto.
Katalin e seu espírito animal, uma marta chamada Tero. Ela faz parte do grupo de rebeldes que luta contra os Conquistadores, e está a procura de Briggan, uma das grandes feras, para pedir ajuda em sua luta. Ela consegue escapar de seus perseguidores pelo rio, recebe ajuda e continua em sua busca por Briggan, mesmo recebendo constantes mensagens do grande lobo para não se aproximar. Ela acaba descobrindo que seus perseguidores capturaram um dos lobos que fazem parte do grupo de Briggan e ela o liberta. É quando ela consegue finalmente ficar cara a cara com a grande fera.
Essix é uma das grandes feras ligadas a humanos. Ela se reúne com outras grandes bestas para decidir o que fazer. Todos concordam, e assim, Essix, Uraza, Briggan, Jhin e vários outros conseguem salvar Erdas. Mas a história não acabou aqui....

Eu adorei esse livro. Na sequência da série Spirit animals, esse é o primeiro extra, que fala das grandes bestas que, no primeiro livro, se ligaram as crianças protagonistas da história. Foi interessante ver como tudo começou e de que forma eles se juntaram para lutar ao lado dos humanos. Eu queria muito que a editora continuasse a publicar os livros dessa série, inclusive os extras (eu li este em inglês), mas não sei se vai acontecer. Indicado.

10 de fev. de 2020

Salvando a Itália (Robert M. Edsel) – DLL 2020


Título: Salvando a Itália
Autor: Robert M. Edsel
Mês: Fevereiro
Tema: Um livro baseado em fatos
Editora Rocco, 430p.

A cada ano, Hitler aumentava sua coleção. Agentes adquiriam para ele obras através de compras legítimas, vendas forçadas e confiscos. Os nazistas emitiram decretos para manter uma cobertura legal, em particular para itens saqueados de judeus. [...]
Com o passar do tempo, as agências de saque nazista ampliaram sua operação à escala industrial. Como Napoleão e outros conquistadores antes dele, o Führer acreditava que a propriedade de obras de arte projetava poder e um senso de conhecimento superior, colocando-o, assim, entre os grandes homens da história.

Em 1943, os exércitos de Hitler invadiram a Itália e com isso, tomaram controle de alguns dos maiores tesouros da humanidade. A partir desse momento, os tesouros do Vaticano e as relíquias do antigo Império Romano, estavam a disposição dos nazistas para saquearem a vontade. E é exatamente isso que eles fazem. Quando as forças Aliadas estão se preparando para invadir a Itália, o general Dwight Eisenhower, comandante em chefe das Forças Aliadas no norte da África, deu poderes a alguns soldados de protegerem essas riquezas. Em maio de 1944, Deane Keller, professor de arte e caçador de obra-prima para os EUA, e Fred Hartt, historiador de arte e caçador de obra-prima na Toscana, saem de Nápoles e embarcam numa caçada pelas obras-primas roubadas e desaparecidas valendo milhões de dólares.
Quando a guerra já estava perdida para a Alemanha, chegaram ordens dos mais altos escalões nazistas para se transportar caminhões carregados de obras de arte para o norte, em direção ao território alemão. No entanto, o general Karl Wolff, desejoso de não cair junto com Hitler, impede que as grandes coleções dos museus Galleria Uffizi e Palácio Pitti saiam do território italiano, buscando negociar uma rendição secreta.

A Alemanha nazista havia chegado ao abismo – nenhum futuro e nenhuma saída. Muitos integrantes do círculo imediato de Hitler se preparavam para o pior. Não querendo ligar sua sobrevivência ao destino do Führer, Karl Wolff havia elaborado um plano secreto de oferecer a rendição de um exército alemão inteiro – cerca de 1 milhão de homens na Itália – aos aliados ocidentais. [...]

Esse livro é uma maravilha para quem gosta de arte e história. Além de dar detalhes das missões de resgate e preservação de monumentos, lugares e obras artísticas e históricas dentro da Itália durante a Segunda Guerra Mundial, o autor também fornece no livro algumas imagens da destruição dos lugares mais afetados durantes os bombardeios na guerra.
Se eu, que não nasci na Itália, fiquei impactada com o nível de destruição dos lugares, imagine os florentinos vendo o resultado das bombas em sua cidade (a destruição das pontes de Florença está além de triste, quando se tem noção do nível da perda histórica):

O repórter do New York Times Herbert Matthews obser vou que “Florença não é mais a Florença que o mundo conheceu por 400 anos. (...) o coração de Florença desapareceu”. De suas seis pontes – San Nicolò, alle Grazie, Vecchio, Santa Trinita, alla Carraia e alla Vittoria, só a Ponte Vecchio sobreviveu. [...]


Comparação das pontes antes e depois dos bombardeios. Observem a “ponte Bailey” construída sobre os pilares de pedra sobreviventes da Ponte Santa Trinitá [Ao alto: Bayerische Staatsbibliothek Munich/ Heinrich Hoffman; Abaixo: Pennyover Papers, Department of Art and Archaeology, Princeton University]

Ao longo do livro, se percebe a dificuldade gritante da seção Monuments, Fine Arts and Archives (MFAA) em tentar preservar os locais, tanto que guardavam as obras de arte quando os que eram por si só essas obras.

Tomamos o sempre presente espetáculo de uma cidade arruinada e o multiplicamos por tantas outras cidades na Europa, e é como se a tarefa de reconstrução jamais fosse ser feita. E a perda de obras de arte é insubstituível – belas igrejas destruídas, arquivos enterrados sob o entulho, bibliotecas expostas ao tempo e ao roubo... este trabalho parece tão mais importante e tão irremediavelmente imenso. E, sozinho, sinto-me como sete criadas com sete vassouras no meu cantinho... certamente ajudaria se o resto do país se rendesse sem combate.

Foi incrível ver como poucas coleções sobreviveram ao saque, e nisso se inclui o enorme tesouro do Vaticano. Fiquei surpresa, apesar de que não deveria ter ficado, com o ponto em que Göring, um colecionador mais variado que Hitler (e que durante os anos de 1940 a 1942 havia feito 20 visitas separadas ao depósito principal da ERR de obras roubadas em Paris, o Museu Jeu de Paume, para fazer seleções para sua própria coleção) estava disposto a chegar para que ninguém nunca mais as encontrasse no fim da guerra.

Enquanto o Generalfeldmarschall Kesselring evacuava as tropas de seu quartel-general militar em Adlerhorst, o Reichsmarschall Göring supervisionava o empacotamento final de sua coleção de arte em Carinhall. Dois carregamentos já haviam partido para Veldenstein, na Bavária; de lá, os trens viajariam para Berchtesgaden, onde Göring também tinha uma casa. [...]
Em 28 de março, as obras-primas de Nápoles roubadas de Monte Cassino chegaram a seu destino final – o repositório nazista em Altaussee, na Áustria. Mineiros levaram para o labirinto de túneis milhares de pinturas, desenhos, gravuras, esculturas, peças de mobília e tapeçarias, muitas destinadas ao Führermuseum, de Hitler.
Duas semanas depois, oito caixotes de madeira pertencentes ao gauleiter August Eigruber chegaram em dois carregamentos, cada um pesando 500 quilos, marcados com a advertência ATENÇÃO! – MÁRMORE – NÃO DEIXAR CAIR. Mais uma vez, os mineiros carregaram os novos carregamentos pelas passagens estreitas de túneis, todavia, desta vez, receberam a estranha ordem de espalhar os caixotes pela mina, em vez de colocá-los juntos. Tivessem eles sabido que cada caixote continha uma bomba, não uma escultura em mármore, estas instruções teriam feito sentido. Eigruber – como Wolff, Himmler e Kaltenbrunner – tinha seu próprio plano. Em vez de permitir que as obras caíssem nas mãos do “judaísmo internacional”, ele destruiria a mina de sal e cada obra de valor inestimável armazenada em seu interior.

Nápoles, Florença, Pisa, Toscana, praticamente nenhum lugar escapou de algum grau de destruição de monumentos e roubo de artes. À medida que os Monuments Men chegavam no local e realizavam suas inspeções, anotavam a perda de coleções públicas e particulares. Com a derrota dos nazistas e fascistas, muitos sítios culturais passaram a precisar de inspeções e os trabalhos dos Monuments Men se tornou muito requisitado. Achei interessante que, apesar de durante a guerra, se tivesse que se escolher entre vidas humanas e lugares históricos se escolheria a vida humana, as pessoas dos lugares que o grupo visitava apreciavam os esforços de preservação. E quando a guerra terminou, o autor consegue descrever a emoção das pessoas quando as obras eram devolvidas aos seus lugares de origem.
Não tenho palavras para dizer o quanto eu gostei dessa leitura. Foi ótimo aprender mais sobre esse capítulo tão aterrador da história humana, de uma perspectiva diferente. Completamente recomendado.

7 de fev. de 2020

Contando estrelas (Luciane Rangel) – DLL 2020


Título: Contando estrelas
Autora: Luciane Rangel
Mês: Fevereiro
Tema: Um livro de capa colorida
Editora Qualis, 264p.

Elisa é uma garota que tem uma vida boa. Apesar de não ser exatamente rica, ela estuda no melhor colégio, faz parte de um grupo de amigas popular, é inteligente e tem uma paixonite pelo garoto mais gato da sala. A única coisa que Elisa não tem é empatia. Quando a professora de história aparece com um novo projeto valendo a nota final do ano, todos os alunos reclamam, mas terão que fazer: trabalho voluntário. Elisa acaba fazendo par com o garoto novato, Fábio, quem ela considera esquisito. De início, eles não se dão bem, mas com o passar do tempo, Elisa deixa de ver o rapaz como um pobretão, enquanto Fábio começa a ver além da garota mimada cabeça-de-vento. Os dias passam, Elisa vai se acostumando ao trabalho voluntário e aprende a ser uma pessoa melhor, e passa a entender o hábito de Fábio de dobrar papéis em formato de estrelas, mas as coisas tomam um rumo que ninguém esperava quando Miguel, a paixonite de Elisa, resolve se vingar por ter sido deixado de lado...

Mais uma vez, um livro da Luciane que me deixa ansiosa pelo final (eu achei que alguém ia morrer) ao mesmo tempo em que eu queria esganar a protagonista durante quase o livro inteiro rsrsrs O mistério todo fica por conta do Fábio, que de início parece mesmo um garoto pobretão, mas à medida que se entende o hábito dele de dobrar estrelas de papel, consegue se entender mais o personagem e suas motivações. A história em si é encantadora e cheia de lições de vida e claro que o final não decepciona (a única coisa que eu queria que tivesse sido mais explicada foi a vida de Miguel no fim do livro, deu a impressão de que ficou faltando). Recomendado.

27 de jan. de 2020

Lendo o Brasil: MATO GROSSO DO SUL - O Ritual dos Chrysântemos (Celso Kallarrari)

Eurico é filho de pai sírio e mãe índia (guarani). Poliana é filha de um japonês com uma paraguaia. Os dois fizeram um pacto de fidelidade até o casamento, e concretizam esse pacto num rito onde fazem uma inscrição num pé de erva mate. Quando Poliana morre no apartamento onde o namorado Eurico morava, ninguém consegue descobrir se foi por assassinato ou suicídio. Tudo que cerca sua morte é um mistério, cercada pela simbologia dos crisântemos (uma planta ligada a vida do casal), que foram despetalados e semeados em seu corpo. A coisa fica mais estranha porque esse mesmo “ritual” ligada ao crisântemo também se repete nos corpos de outras vítimas depois de Poliana.


Aí está a primeira surpresa do desafio esse ano. O mistério que cerca a morte de Poliana e das outras jovens virgens e a ligação com o crisântemo prende a atenção, e a história fica melhor quando você percebe que não consegue decidir quem é o assassino, mesmo que Eurico seja um suspeito. O livro é curto, o que é bom, porque a leitura não fica cansativa. Recomendo.

Editora Reflexão.
281 páginas.

24 de jan. de 2020

198 livros: UCRÂNIA - Vozes de Chernobyl (Svetlana Aleksiévitch)

Em 1986, o quarto reator da usina nuclear de Chernobyl, na Bielorússia, explodiu, despejando na atmosfera uma quantidade enorme de material radioativo em uma velocidade que mal pode ser calculada. Nos dias de hoje, se estimam que 500 mil pessoas foram afetadas pela explosão. Neste livro, as esposas e os maridos, os filhos, avós, bombeiros, militares, relatam como foram os dias seguintes a explosão, quais as atitudes do governo atingiram as pessoas e de que forma.


Eu imaginava que esse livro seria muita coisa: visceral, hipnótico, triste, enlouquecedor, tudo em medidas iguais. Mas eu realmente não esperava que fosse TANTO. Ao invés de trazer detalhes sobre o acidente (era isso que eu achava que leria), a autora traz relatos das pessoas que moravam na cidade e de forma elas lidaram com amigos e parentes atingidos, de uma forma ou de outra, pela catástrofe.
Se eu pudesse, faria um resumo de cada um dos relatos, mas não quero dar spoiler, só posso dizer que dois relatos me levaram às lágrimas: o primeiro, de Liudmila Ignatiènko, e do presidente da Sociedade Recreativa dos Caçadores e Pescadores de Jóiniki, Víktor Ióssifovitch Verjikóvski, e dois caçadores: Andrei e Vladímir.
Particularmente, o relato dos caçadores me destruiu, eu tive que fechar o livro, respirar algumas vezes e me convencer a voltar a ler, porque tive vontade de cancelar a leitura na hora. E tem mais, vários outros relatos de pessoas, crianças na época, que tiveram suas vidas afetadas. Livro completamente arrebatador, que te leva a refletir, acima de tudo, sobre o ser humano. Completamente indicado.

Editora Companhia das Letras.
384 páginas.

22 de jan. de 2020

No coração do mar (Nathaniel Philbrick) – DLLC 2020


Título: No coração do mar
Autor: Nathaniel Philbrick
Mês: Janeiro
Tema: Um livro com uma aventura em alto-mar
Editora Companhia das Letras, 371p.

Sem se mover mais para trás, o Essex agora ia direto para baixo. A baleia, havendo subjugado o seu estranho adversário, desembaraçou-se das lascas das tábuas estraçalhadas do casco, revestido de cobre, e nadou para longe, para sotavento, e nunca mais foi vista.

Em 20 de novembro de 1820, em algum ponto do Pacífico Sul, o navio de Nantucket, Essex, foi abalroado por uma baleia que nunca mais foi vista depois desse ataque. Esse é o resumo de um dos desastres marítimos mais famosos do século XIX, que inspirou a escrita de Moby Dick, de Herman Melville.
Nantucket era uma ilha norte-americana cuja economia se baseava totalmente na caça às baleias, e por isso se transformou, na época, no maior polo mundial do comércio de óleo, utilizado como combustível para iluminação e como lubrificante nas novas indústrias. Graças a esse mercado, os baleeiros começaram a explorar mares desconhecidos.
O Essex saiu de seu porto no dia 12 de agosto de 1819, numa viagem que o jovem Capitão Pollard Jr. esperava que fosse curta e esperançosa, mas que se revelou um completo desastre e custou a vida da maioria dos homens sob seu comando. As marcas psicológicas deixadas por esse acontecimento na vida dos sobreviventes permaneceu com eles suas vidas inteiras e só acabou vindo a luz a partir dos relatos do primeiro imediato Owen Chase e do jovem marinheiro Thomas Nickerson.

Assim como quando eu vi o filme, esse livro me deixou com sentimentos mistos. Desde a primeira vez que ouvi falar da história da baleia que atacou um navio baleeiro, fiquei apaixonada por essa história. Fui atrás, li Moby Dick, vi a adaptação (filme bem antigo) e na época, eu queria fazer oceanografia e me juntar ao Greenpeace para salvar as baleias dos japoneses. Foi um choque, anos depois, quando descobri que a história de Melville se baseava em uma história real, e é sobre isso de que se trata esse livro, sem dúvida um dos melhores da minha lista de leituras em 2020 (duvido que essa minha observação seja precipitada). A leitura prende do início ao fim, mesmo com as descrições históricas da época, que para alguns pode ser cansativo, mas ajuda muito a entender a importância do comércio do óleo da baleia.
As descrições fornecidas sobre o processamento do óleo podem ser meio nojentas, por falta de palavra melhor, principalmente se você tem em mente a cena em questão do filme, mas também mostram o que faziam com o cadáver da baleia, porque a primeira vista se pensa “se eles estavam interessados no óleo, o que acontecia com o restante do animal?”.
A medida que se vai lendo, se percebe o nível dos problemas pelos quais eles passaram, devido às decisões equivocadas dos “líderes” do navio, devido as ações mal executadas dos próprios homens, ao ponto de que se pensa que o que acontece com o Essex e os extremos a que eles chegam para sobreviver não passam de castigo divino. Foi exatamente essa a sensação que tive quando cheguei nessa parte:

O Essex deixou uma marca permanente na ilha. Quando Nickerson voltou lá anos depois, ainda era uma devastação enegrecida. “Onde quer que o fogo houvesse ardido, não cresceram árvores, mato nem capim”, relatou ele. A ilha Charles foi uma das primeiras das Galápagos a perder sua população de tartarugas. Embora a tripulação do Essex já tivesse cumprido muito bem a sua parte na redução da população mundial de cachalotes, foi ali, naquela minúscula ilha vulcânica, que deram sua grande contribuição para a erradicação de uma espécie animal.

O livro não poupa detalhes sobre o que aconteceu com os ocupantes do Essex depois do naufrágio, apontando as decisões equivocadas de seu capitão, o preconceito reinante (e devo dizer que mesmo disfarçado, era muito presente) na mente dos naturais de Nantucket que coincidiu depois na forma como, coincidentemente ou não, os sobreviventes foram tratados durante os momentos mais cruéis do tempo em que passaram perdidos no mar.

Só um natural de Nantucket, em novembro de 1820, possuía a necessária combinação de arrogância, ignorância e xenofobia para esquivar-se de uma ilha convidativa (embora desconhecida) e optar por uma viagem de milhares de milhas em alto-mar.

É interessante notar que devido as condições do correio na época e ao fato de que uma viagem dessa durava mesmo muito tempo, as novidades sobre o que acontecera com o Essex e seus tripulantes demorou para chegar em Nantucket, então as pessoas não se apavoraram. A volta do capitão Pollard após seu resgate exigiu um relato do acontecido aos donos do navio, mas o assunto meio que se tornou não mencionável devido ao caráter do comércio e a própria fama da cidade em ser o centro do comércio de óleo baleeiro. Owen Chase foi um dos responsáveis pelo relato do ataque e da vida dos sobreviventes no mar, mas ele acaba por omitir muita coisa.


Thomas Nickerson, o tripulante mais novo e camareiro do Essex, anos mais tarde também escreveu um relato sobre o naufrágio e, apesar de conter informações que não estão presentes na narrativa de Owen, ele também adapta o relato aos seus próprios fins.


Resumindo, esse livro é excelente. Um relato vívido e talvez não tão perturbador quanto os citados acima, mas que não fica atrás de nenhum dos dois. Completamente recomendado.