18 de nov de 2012

Passion & purity: Edward Rochester (Femnista) II

Um novo artigo publicado na webzine Femnista, de Setembro-Outubro de 2011, desta vez analisando um dos meus heróis literários favoritos: Edward Rochester.

Paixão e pureza: Edward Rochester (Passion & purity: Edward Rochester). 
Autora (Author): Charity Bishop

A literatura está cheia de homens maravilhosos e abnegados... e então há Edward Rochester, o sombrio anti-herói em Jane Eyre, de Charlotte Bronte. Mal-educado, grosseiro e mentiroso, ele encarna a definição do que as mulheres não devem querer em um homem, mas ainda assim somos levadas a ele. Ele é digno de nossa piedade e admiração ou devemos desprezá-lo por sua intenção de manipular Jane?
Para entender Edward é preciso lembrar a sua história, o que não dá desculpa para seu presente, mas concede-nos um olhar de sua alma. Quando jovem, ele cometeu alguns erros terríveis... particularmente foi forçado a casar com uma mulher que ele nunca havia encontrado antes para garantir a estabilidade financeira de seu pai. Edward logo descobriu que sua noiva era louca e, portanto, ficou preso em um casamento do qual não podia escapar. Quando a maioria dos homens teria colocado Bertha em um asilo, ele não poderia imaginar submetê-la a tais horrores (naqueles dias os habitantes de asilos eram tratados como pouco mais que animais ferozes) e fez arranjos permanentes para a sua estada em Thornfield sob os cuidados de uma enfermeira. Com sua fé na humanidade perdida e todas as chances de encontrar um amor e uma boa esposa cruelmente frustradas, Edward tornou-se resignado a uma existência maçante, sem sentido, entregando-se às coisas do mundo para preencher o vazio em sua vida. Mas a riqueza, a companhia de belas mulheres, e as viagens intermináveis não lhe concederam qualquer forma de felicidade duradoura. Ele se ressente de ter que cuidar de Adele, a filha de uma de suas amantes, cuja mãe abandonou-a aos seus cuidados, sob o pretexto de que a criança era dele. Ao invés de encontrar alegria na presença dela, ele a deixa em casa, continuando em suas viagens, e quando ele está presente, faz pouco mais que insultá-la. Edward chafurda em auto-piedade e miséria até a chegada de Jane, quando ele percebe que não pode estar além da redenção. Infelizmente, o seu estilo de vida anterior habituou-o a buscar o prazer sem se preocupar com as conseqüências, assim ele decide manipular Jane para que ela sinta ciúme de seu interesse fingido em Blanche Ingram, para que Jane possa experimentar alguns dos seus tormentos. Ele acredita erradamente que ao possuir Jane e sua bondade, vai encontrar a felicidade, nunca percebendo que tirando sua pureza tiraria a própria coisa que ele mais ama a respeito dela. Mesmo assim, por causa de sua moralidade, ele sabe que não pode reclamá-la através de meios tão flagrantes então ele recorre a mais mentiras na esperança de seduzi-la em um casamento que, de acordo com a lei, é falso.
A verdade é descoberta na manhã de seu casamento. Jane está profundamente magoada e apesar dos apelos chorosos de Edward, recusa-se a ficar em Thornfield como sua amante. Sua escolha em manter a sua fé e deixá-lo, apesar de seu amor por ele é o que o quebra ao ponto da redenção. Se ela tivesse escolhido ceder e sacrificar a sua virtude e princípios, eventualmente, ele teria odiado-a por ter abandonado suas crenças por causa dele. Sua culpa teria sido imensa, ele continuaria sentindo aversão a si próprio, ao mesmo tempo em que descobriria que a felicidade não pode prosperar em pecado.
A evidência da influência de Jane sobre ele torna-se aparente em suas ações para com Bertha quando ela coloca a casa em chamas. O Edward anterior cuidou dela por um senso detestado de dever e obrigação (a sua distância emocional de Adele é um bom exemplo disso) ao invés de qualquer verdadeira compaixão e ele não teria arriscado a sua vida na tentativa de resgatá-la. Ele poderia até mesmo ter visto a sua morte potencial como uma forma de libertação do seu atual estado infeliz. Mas porque Jane e seus princípios firmes fizeram-no aspirar a coisas maiores, embora a morte de Bertha significasse sua liberdade, ele vai para a casa em chamas atrás dela, perdendo a visão e o uso de uma mão no processo. O orgulhoso e ameaçador Rochester é reduzido a uma concha de sua antiga personalidade, um homem que agora deve depender da compaixão dos outros. Ele é ainda mais humilhado no retorno de Jane, quando ele descobre que ela não quer nada; suas experiências com seus primos a tornou financeiramente segura e auto-confiante. Jane sobreviveu a um coração partido e se tornou mais forte para ele. Ela já não precisa dele para preencher o vazio em sua vida, pois ela descobriu sua família. Nem ela precisa dele para atuar como seu protetor. Não mais uma governanta, Jane é em todos os sentidos sua igual. Ela escolhe voltar para ele não por necessidade, mas por sentir um amor genuíno por ele que transcende seu estado quebrado e permite que ela, finalmente, dê a ele a verdadeira felicidade.
Em muitos aspectos, o romance Jane Eyre é tanto uma história de fé quanto é um romance. Muitos tipos de fé estão representados nele, da crueldade da falsa crença na escola para a doçura de Helen, que ajuda Jane a entender que a obediência a Deus é mais do que evitar o inferno. Há St. John, cuja determinação em ser um missionário se opõe a qualquer forma de paixão física ou amor genuíno. E depois há a fé inabalável de Jane, que a proíbe de ser amante de Edward e traz sua redenção final. Embora no romance os temas do amor e da fé sejam inseparáveis, as adaptações da maioria dos filmes minimizam-nos tanto quanto possível e ao fazê-lo, fazem ao espectador um grave desserviço. Edward e Jane são mais conhecidos nas páginas do romance que os trouxeram à vida. Mas a única adaptação que traz o tom religioso e os conflitos do romance para a superfície é o curta musical da Broadway, cheio de canções gloriosas e dramáticas que retratam o tormento de Edward em enganar Jane e sua miséria em deixá-lo. Ele incorpora muito do diálogo original da autora de forma única e emocionante e eu recomendo ouvir o álbum. Para mim continua a ser a versão perfeita, apesar de ser um áudio ao invés de representação visual da história.
Edward veio à vida muitas vezes através de diferentes representações de muitos atores talentosos, mas minha representação favorita é da recente minissérie da BBC. Ao invés de cair presa da tentação de fazer um Edward sem senso de humor, Toby Stephens se aproxima do personagem com flerte e encanto, de tal forma que, pela primeira vez, o meu senso de moralidade foi abalado apenas o suficiente para esperar que Jane possa mudar de idéia. É aí que reside a força da história e do seu poder, que nos pede para escolher entre o que nosso coração deseja para Jane e Edward e o que seria melhor para eles. Edward é um homem imperfeito, mas fez tanto melhor no final.

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