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14 de ago. de 2026

Declínio e queda do império romano (Edward Gibbon)



Título: Declínio e queda do império romano 
Autor: Edward Gibbon
Mês: Agostoo
Tema: Calhamaço
Editora Companhia das Letras, 607p.

Sinopse: Publicada em seis volumes, entre 1776 e 1778, esta obra, imediatamente reconhecida como clássica e que se tornaria a mais famosa da historiografia inglesa, abrange três grandes períodos: da época de Trajano e dos Antoninos (c. 100 d.C.) à extinção do império romano do Ocidente, com a conquista de Roma por Alarico em 410; do reinado de Justiniano no Oriente ao estabelecimento do Sacro Império Germânico por Carlos Magno; e, por fim, do renascimento do império no Ocidente à tomada de Constantinopla. Abreviada e editada pelo renomado especialista Dero A. Saunders, esta edição aborda principalmente o período inicial, o do progressivo enfraquecimento do império romano no Ocidente. Com isso, o leitor brasileiro tem a oportunidade de acompanhar, na prosa cadenciada de um dos maiores estilistas da literatura inglesa, o "triunfo da barbárie e da religião" sobre as nobres virtudes romanas que Gibbon tanto admirava. E, sempre presente neste modelo de narrativa histórica, a irresistível ironia de Gibbon, exemplificada em sua famosa definição da história como "pouco mais do que o registro dos crimes, loucuras e desventuras da humanidade".

Um clássico sobre a história do império romano. Eu tenho esse livro faz um bom tempo, e nunca me toquei que essa edição não traria todos os volumes dessa obra monumental. Mesmo sendo essa uma edição abreviada, vale totalmente a pena. No final de alguns capítulos, explica-se o porque deles não estarem inteiros (se for o caso) e é feito um breve resumo do restante. Para uma primeira leitura, eu gostei muito. Obra indispensável, seja você um historiador ou não.

9 de nov. de 2022

Para educar crianças feministas (Chimamanda Ngozi Adichie) – DLL 2022


 

Título: Para educar crianças feministas 
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie 
Mês: Novembro 
Tema: Um livro escrito por autor africano 
Editora Companhia das Letras, 96p. 

Essas são as 15 sugestões de Chimamanda para educar uma criança feminista: não seja definida pela maternidade; divida a criação dos filhos com o pai; não diga que uma menina não pode fazer algo porquê é uma menina; ensine a criança a tomar cuidado com o feminismo condicional; ensine a criança a ler; ensine a questionar a linguagem e decida o que dirá ou não a criança; não fale do casamento como uma realização; ensine a não se preocupar em agradar; dê a criança um senso de identidade; fique atenta às atividades e à aparência dela; ensine-a a questionar o uso seletivo da biologia como “razão” para normas sociais em nossa cultura; converse com ela sobre sexo; apoie o romance que irá existir (porque irá existir); ensine sobre opressão e não faça dos oprimidos santos; e finalmente ensine sobre a diferença e a torne normal.

Nunca lhe diga para fazer ou deixar de fazer alguma coisa “porque você é menina”. “Porque você é menina” nunca é razão para nada. Jamais. 

Esse foi mais um livro que eu fiquei desejando que fosse maior, bem maior. Apesar da autora conseguir falar tudo a que se propõe me pouco mais de noventa páginas, quando se lê sobre um assunto com o qual você tem afinidade, a vontade é que o livro não acabe mais. A cada tópico, a cada sugestão, eu poderia acrescentar muitos mais exemplos que iriam trazer mais exemplos e mais ramificações do assunto. Não acho que levei mais de uma hora para ler esse livro e adorei.

14 de mar. de 2022

Sejamos todos feministas (Chimamanda Ngozi Adichie) – DLL 2022


 

Título: Sejamos todos feministas 
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie 
Mês: Março 
Tema: Um livro escrito e protagonizado por uma mulher negra 
Editora Companhia das Letras, 87 p. 

Sinopse: Chimamanda Ngozi Adichie ainda se lembra exatamente do dia em que a chamaram de feminista pela primeira vez. Foi durante uma discussão com seu amigo de infância Okoloma: "Não era um elogio. Percebi pelo tom da voz dele; era como se dissesse: Você apoia o terrorismo!" Apesar do tom de desaprovação de Okoloma, Adichie abraçou o termo e - em resposta àqueles que lhe diziam que feministas são infelizes porque nunca se casaram, que são antiafricanas e que odeiam homens e maquiagem - começou a se intitular uma "feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens". 
Neste ensaio preciso e revelador, Adichie parte de sua experiência pessoal de mulher e nigeriana para mostrar que muito ainda precisa ser feito até que alcancemos a igualdade de gênero. Segundo ela, tal igualdade diz respeito a todos, homens e mulheres, pois será libertadora para todos: meninas poderão assumir sua identidade, ignorando a expectativa alheia, mas também os meninos poderão crescer livres, sem ter que se enquadrar em estereótipos de masculinidade. Sejamos todos feministas é uma adaptação do discurso feito pela autora no TEDx Euston, que conta com mais de 1,5 milhão de visualizações e foi musicado por Beyoncé. 

Que livro maravilhoso. Que discurso poderoso. Essas são as duas maneiras que encontrei para começar a falar desse livro. Que é muito curto, por sinal. O relato sobre sua vida e suas experiências pessoais, apesar de curto, chega a ser avassalador, porque nós tomamos mais consciência do que significa ser uma mulher negra e feminista. Eu só me pergunto o por quê do livro não ser maior (sim, eu sei que é a transcrição de um discurso, mas a leitura é tão satisfatória que se fica querendo mais). De qualquer forma, vale a pena porque levanta o questionamento pessoal sobre certas relações que estão muito enraizados em nós. Dez estrelas são muito pouco.

21 de fev. de 2022

Cartas extraordinárias (Shaun Usher) – PSRC 2022



Título: Cartas extraordinárias: a correspondência inesquecível de pessoas notáveis 
Autor: Shaun Usher 
Mês: Fevereiro 
Tema: Um livro que você não sabe nada sobre ele 
Editora Companhia das Letras, 368p. 

125 cartas de gente importante até gente... não tanto assim. Da carta da rainha Elizabeth ao presidente Eisenhower com sua receita pessoal de scones, passando pela carta de despedida de Virgínia Wolf ao marido, e pela carta de Beethoven para seus irmãos explicando seu comportamento antissocial, até o pedido de socorro do Titanic ao SS Birma, este livro proporciona uma experiência de leitura bastante surpreendente. 
O livro traz os fac-símiles de algumas cartas, não todas. As que aparecem mostram os mais diferentes tipos de papéis, com os mais variados tipos de caligrafias. A cada carta, o autor faz um breve resumo sobre o assunto dela. Cartas da realeza, de artistas de todos os tipos, de escritores a pacifistas, o livro reúne um acervo bastante eclético que faz com que se conheça um pouco mais sobre essas personalidades da história da humanidade. 

Caro leitor, O lindo livro que você agora tem em mãos é o coroamento de uma inesperada mas deliciosa viagem de quatro anos por cartas, memorandos e telegramas de famosos, de infames e de não tão famosos — um projeto imensamente gratificante que começou como site e agora se materializa, graças à reação positiva ao lançamento on-line: um museu de cartas em forma de livro que, organizado com todo o carinho, vai prender-lhe a atenção e despertar-lhe as mais variadas emoções; vai, talvez, fornecer alguma novidade até mesmo aos mais bem informados; e, espero, vai demonstrar a importância e o incomparável fascínio da correspondência à moda antiga num momento em que o mundo se digitaliza e a arte de escrever cartas desaparece. 

É a isso que o livro se propõe e devo dizer que consegue alcançar o objetivo de forma brilhante. Eu achei que a carta da Rainha Elizabeth seria a mais impressionante, mas me enganei. Uma das que me surpreendeu foi a de William Patrick Hitler, sobrinho de Hitler, endereçada ao presidente Roosevelt em 1942. O que ele queria: se alistar nas forças armadas americanas, o que já havia lhe sido negado pelo motivo de ser parente do ditador nazista. Após uma investigação do FBI feita por ninguém menos que J. Edgar Hoover, ele obteve a permissão para servir na Marinha. Outra que se destaca entre tantas correspondências inesquecíveis: a carta de Mohandas Gandhi a Hitler, datada de 23 de julho de 1939, pedindo a ele para evitar a guerra (a correspondência nunca chegou ao destin graças a intervenção do governo britânico). Todo o livro é uma maravilha, e apesar de ter mais de 300 páginas, eu só queria que tivesse mil para abarcar muitas correspondências mais. Completamente indicado.

12 de nov. de 2021

Volta ao mundo em 52 dias (Neil Philip) – DLL 2021

 

Título: Volta ao mundo em 52 dias 
Autor: Neil Philip 
Mês: Novembro 
Tema: De contos 
Editora Companhia das Letras, 160p. 

Sinopse: Com 52 narrativas de 33 países dos cinco continentes, essa coletânea inclui clássicos como "Chapeuzinho Vermelho" e histórias cuja difusão se restringiu a determinadas culturas, como "Soliday e o corvo", da Jamaica. Alguns contos pouco conhecidos no Brasil, como o tcheco "A raposa manca", assemelham-se a narrativas famosas, como "O Gato de Botas". Todas as histórias são complementadas por informações paralelas sobre sua origem, seu tema e seus símbolos, sobre locais e personagens relacionados com os protagonistas, sobre o país e a época em que teriam se desenrolado, etc. Desenhos, quadros famosos e fotografias compõem o material iconográfico e ajudam a dar a esse livro o caráter de uma "história das histórias". A pesquisa e a organização do volume são do inglês Neil Philip, especialista em mito e folclore na literatura infantil. 

Desde que eu descobri esse livro, fiquei com muita vontade de ler. Sempre gostei de contos de fadas, tenho outros livros sobre contos europeus e gostei desse porque ele traz não só variações desses contos, mas também do Japão, Costa Rica, República Tcheca, Irã, dentre outros lugares. As ilustrações são lindas, dão um toque de livro antigo, o que foi outro chamariz. O autor faz uma breve introdução sobre os contos de fadas e os contadores de histórias, e divide os contos em quatro partes, cada uma enfocando em um assunto específico (Encantamentos, Amor,...). Muito indicado.

21 de set. de 2020

O homem que buscava sua sombra (David Lagercrantz) – DLS 2020



Título: O homem que buscava sua sombra
Autor: David Lagercrantz 
Mês: Setembro 
Tema: Um livro muito criticado 
Editora Companhia das Letras, 360p. 

Por seu envolvimento nos acontecimentos sobre o assassinato do professor Frans Balder, Lisbeth Salander tem que cumprir dois meses de prisão e vai parar na cadeia com as prisioneiras mais perigosas do país. Depois de falar com seu antigo guardião, Palgrem, ela acaba ficando desconfiada sobre antigos documentos que falavam de um tipo de experimento realizado com gêmeos (que tem a ver com ela e sua irmã e muitos dos seus traumas de infância). Ao mesmo tempo em que Lisbeth tenta libertar uma jovem detenta que sobre abusos e violência na cadeia, ela entra em contato com Mikael Blomkvist para tentar desvendar mais mistérios de seu passado. E é aí que entra o nome de Leo Mannheimer, cuja própria história é um caso à parte... 

Eu não fazia muita ideia de qual livro escolher para esse tema do desafio, porque na minha cabeça, “livro muito criticado” era “livro proibido ou banido”, e das várias listas sobre esse tema eu já tinha lido alguns e não queria ler outros por falta de afinidade. Então fui atrás das séries que me faltam terminar e de resenhas sobre os livros e vi que esse quinto da série Millennium (e segundo escrito por David Lagercrantz, que “substituiu” Stieg Larsson na continuação da série) foi um livro bastante criticado. 
Na verdade, as críticas sobre a história não focar mais em Lisbeth e Mikael já vem do quarto livro (e primeiro de Lagercrantz), e comparando com o último livro da série, este me pareceu o segundo mais criticado. E as resenhas sempre falando a mesma coisa: seja achando a história boa ou ruim, o foco está sempre no fato de que o enredo pode até girar em torno de acontecimentos relacionados a Lisbeth e Mikael, mas eles mesmos acabam não aparecendo muito na ação da história. 
Agora, sobre a história. Sim, o livro começa com Lisbeth, Mikael se envolve na investigação, ambos tem papéis que “movimentam” a história, mas eu comecei a entender as críticas, porque mesmo que tudo comece com Lisbeth e uma parte central do enredo seja sobre ela, o autor acaba dando mais destaque as pessoas que fazem parte dos segredos a serem desvendados, e a ação é pouca, mesmo Lisbeth estando envolvida nela. Além disso, eles adicionaram uma história à parte (do Leo Mannheimer) que mesmo tendo ligação com a história de Lisbeth, ainda assim se transformou em uma história separada, digamos assim. 
O que me deixou surpresa foi que existem manuscritos deixados por Larsson que Lagercrantz escolheu não utilizar (e saber disso me lembrou tanto Star Wars e o fato de que não utilizaram as ideias do Lucas pra trilogia sequel, e agora até rumor que essa trilogia deixaria de ser cânone surgiu, o que me enlouqueceu, mas voltando...) e isso acaba sendo decepcionante, porque não tem problema o novo autor querer colocar suas próprias ideias, mas precisa ter consciência de que tudo começou com outra pessoa. Enfim. Não achei o livro decepcionante, mas concordo que Lisbeth está bem diferente da trilogia original; não desmerece a história, mas se entende as críticas. Mesmo assim, recomendo.

18 de set. de 2020

A garota na teia de aranha (David Lagercrantz) – DLL 2020


Título: A garota na teia de aranha
Autor: David Lagercrantz
Mês: Setembro
Tema: Um livro de autor sueco
Editora Companhia das Letras, 472p.

O professor Frans Balder é um gênio da informática. Ele deixa seu trabalho para trás e vai em busca do filho August, em Estocolmo, após anos de negligência parental. Ele sempre só pagava pensão para o menino, que ficava com a mãe, uma atriz em decadência, e seu novo parceiro. Á medida que convive com o menino, Frans percebe que o filho sofreu maus tratos, e que August, apesar de sua doença mental severa, também tem uma capacidade intelectual imensa. Enquanto isso, Mikael Blomkvist esá passando por uma crise em sua carreira, sofrendo críticas sem fim. A própria Millenium não está passando por bons momentos também. Lisbeth Salander, ao hackear um órgão do governo americano, descobre a existência de Frans Balder, o qual está correndo grave perigo. Mas, envolvido com as descobertas sobre a doença do filho, ele nega toda ajuda. Até ser assassinado, mas como seu “desaparecimento” não tinha sido explicado por ninguém, as pessoas não sabiam de seu filho. August, agora testemunha do assassinato do pai, está correndo risco, ainda mais porque consegue retratar o momento do assassinato em seus desenhos. É aí que Lisbeth entra em cena, pois Mikael, com quem Frans tinha combinado se encontrar na noite em que morreu, meio que testemunha o crime, e ele pede ajuda dela, lançando ambos em uma caça que envolve muito mais que a simples morte de um professor.

Quando eu peguei esse livro para ler, fiquei com um pé atrás. Na primeira vez que soube dele, eu já fiquei na duvida, porque sabia que o autor era falecido e não sabia se e que ele tivesse deixado algum manuscrito para ser publicado postumamente. De qualquer forma, era sobre Lisbeth Salander e essa personagem não precisou de três livros para se transformar em uma das minhas heroínas literárias favoritas (depois do primeiro livro, eu já a idolatrava). De certa forma, dá para perceber a diferença na escrita, como se os personagens tivessem mantido sua essência, mas sem aquele ritmo frenético que caracterizava ambos. Eu atribui isso ao fato de que a trilogia original contava a história de Lisbeth então ela tinha que aparecer mais. Diferentemente dessa história, onde o foco é outro personagem, mas Lisbeth e Mikael desempenham um papel crucial no desenvolvimento dos acontecimentos. Para um livro escrito por outra pessoa, está muito bom.

24 de jun. de 2020

Lendo o Brasil: PIAUÍ - O homem e sua hora (Mario Faustino)

Sinopse: Mário Faustino foi um poeta-crítico e um crítico-poeta. Foi um poeta-crítico porque uniu a reflexão à consciência da linguagem, sem nunca ter perdido de vista a matéria da poesia e o ato de fazê-la.


Ás vezes, a obra de um autor se torna muito mais interessante justamente porque ele não está mais vivo. É o caso deste livro. Mário Faustino morreu muito cedo, em um acidente aéreo, mas antes ele escreveu poemas que chamou de experimentais e publicou-os em jornais. Este é o único livro que ele publicou em vida, e a despeito das minhas tentativas loucas de encontrar autores do Piauí, esse foi o que mais me chamou atenção. Recomendado.

Editora Companhia das Letras.
232 páginas.

22 de abr. de 2020

198 livros: IRÃ – Persépolis (Marjane Satrapi)

Marjane Satrapi nasceu em uma família politizada e moderna, o que fez com que ela desde pequena fosse engajada. Aos 10 anos de idade, ela passa a usar o véu, sem saber porque exatamente, e passa a testemunhar o início de uma revolução islâmica, quando o regime xiita começa a ser “implantado” em países como o Irã (antiga Pérsia). Temerosos da situação no país, seus pais a mandam para estudar fora. Na Áustria, ela fica chocada com os costumes ocidentais, mesmo que, para os padrões, sua família fosse considerada liberal. Ao voltar para o Irã na tentativa de reencontrar sua identidade, ela vê os atos de resistência da população.


Como é um livro biográfico em formato de HQ, fica fácil e complicado ao mesmo tempo fazer uma resenha sem dar spoiler. Fácil porque é biografia, e complicado porque como HQ a história fica mais “resumida” do que se fosse contada em forma de texto, o que pode levar a se falar dela mais do que se deve... O que eu tenho que dizer com certeza é que as histórias são de fácil entendimento, e o ponto forte fica por conta da arte gráfica, que se inspira na arte persa. Outro chamariz é que a autora não se prende a falar somente do Irã da sua época, mas também aborda bastante sua história antiga. HQ pra lá de recomendada.

Editora Companhia das Letras.
352 páginas.

20 de abr. de 2020

A guerra não tem rosto de mulher (Svetlana Alexievich) – DLS 2020


Título: A guerra não tem rosto de mulher
Autora: Svetlana Alexievich
Mês: Abril
Tema: Um livro de um autor vencedor ao nobel de literatura
Editora Companhia da Letras, 392p.

Vou dizer o seguinte: sem ser mulher não dá para sobreviver na guerra.

Elas foram atiradoras de elite e enfermeiras. Desarmaram minas terrestres e bombas. Foram pilotas, médicas de campo, oficiais de comunicação. Estas mulheres combateram com os filhos nas costas. Em relatos curtos e médios (às vezes contidos e não tão honestos), a autora fala que as mulheres tiveram que lidar com piolhos, lama e sangue, que endurecia e causava bolhas (já que elas não tinham como trocar de roupa). Esses relatos dão voz a história das mulheres que lutaram no exército vermelho durante a Segunda Guerra Mundial.

A vila da minha infância depois da guerra era feminina. Das mulheres. Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que isso ficou comigo: quem conta a guerra são as mulheres. Choram. Cantam enquanto choram.

OMG! Depois de ler Vozes de Tchernóbil, achei que estava preparada para mais um livro desta autora. Até porque não é a primeira vez que leio um livro sobre guerra. Não achei que fosse possível, mas esse livro conseguiu me chocar mais do que o primeiro. Foi difícil até resenhar, dada a quantidade de questionamento que ficou na minha cabeça depois que terminei de ler. O relato é brusco, fala com uma franqueza absoluta sobre o efeito da guerra na vida dessas mulheres. Mesmo assim, não se ignora o lado feminino delas (elas queriam estar bonitas). Um livro completamente arrebatador, muito recomendado.

17 de fev. de 2020

A biblioteca desaparecida (Luciano Canfora) – DLL 2020


Título: A biblioteca desaparecida: histórias da biblioteca de Alexandria
Autor: Luciano Canfora
Mês: Fevereiro
Tema: Um livro de autor italiano
Editora Companhia das Letras, 200p.

Sinopse: Ptolomeu Filadelfo quer reunir todos os livros do mundo; o califa Omar pretende queimá-los todos, salvo o Corão. Entre esses dois sonhos, nasceu e foi destruída a monumental biblioteca de Alexandria, cidade que por mais de mil anos serviu de capitalcultural do Ocidente. Para narrar a história dessa imensa coleção de livros, Luciano Canfora retoma uma antiga técnica dos bibliotecários de Ptolomeu: a montagem e a reescritura das fontes, fundidas numa prosa aparentemente romanceada, mas na realidade baseada, quase frase por frase, em textos antigos. A história da maior biblioteca do mundo se confunde assim com a história dos livros que acumulou e dos livros que a descreveram, como uma última crônica de um erudito bibliotecário de Alexandria.

Fazia tempo que eu queria ler esse livro. Na minha época de faculdade, encontrei uma edição da biblioteca e sempre pegava, mas acabava deixando de lado por causa de outras leituras e dos trabalhos. Talvez ficasse empacado na lista de leitura por mais tempo, se eu não descobrisse (na sorte) que o autor é italiano. Gostei da leitura, apesar de ter sido um pouco complicado se acostumar com a narrativa, porque esse parece ser um desses livros que se usa na hora de escrever artigos e textos acadêmicos. Não é um romance histórico, fica mais para o lado da biografia, mas achei ele bem técnico, apesar do autor falar muito dos maiores momentos do Egito que marcaram a existência da biblioteca. Livro indicado.

24 de jan. de 2020

198 livros: UCRÂNIA - Vozes de Chernobyl (Svetlana Aleksiévitch)

Em 1986, o quarto reator da usina nuclear de Chernobyl, na Bielorússia, explodiu, despejando na atmosfera uma quantidade enorme de material radioativo em uma velocidade que mal pode ser calculada. Nos dias de hoje, se estimam que 500 mil pessoas foram afetadas pela explosão. Neste livro, as esposas e os maridos, os filhos, avós, bombeiros, militares, relatam como foram os dias seguintes a explosão, quais as atitudes do governo atingiram as pessoas e de que forma.


Eu imaginava que esse livro seria muita coisa: visceral, hipnótico, triste, enlouquecedor, tudo em medidas iguais. Mas eu realmente não esperava que fosse TANTO. Ao invés de trazer detalhes sobre o acidente (era isso que eu achava que leria), a autora traz relatos das pessoas que moravam na cidade e de forma elas lidaram com amigos e parentes atingidos, de uma forma ou de outra, pela catástrofe.
Se eu pudesse, faria um resumo de cada um dos relatos, mas não quero dar spoiler, só posso dizer que dois relatos me levaram às lágrimas: o primeiro, de Liudmila Ignatiènko, e do presidente da Sociedade Recreativa dos Caçadores e Pescadores de Jóiniki, Víktor Ióssifovitch Verjikóvski, e dois caçadores: Andrei e Vladímir.
Particularmente, o relato dos caçadores me destruiu, eu tive que fechar o livro, respirar algumas vezes e me convencer a voltar a ler, porque tive vontade de cancelar a leitura na hora. E tem mais, vários outros relatos de pessoas, crianças na época, que tiveram suas vidas afetadas. Livro completamente arrebatador, que te leva a refletir, acima de tudo, sobre o ser humano. Completamente indicado.

Editora Companhia das Letras.
384 páginas.

22 de jan. de 2020

No coração do mar (Nathaniel Philbrick) – DLLC 2020


Título: No coração do mar
Autor: Nathaniel Philbrick
Mês: Janeiro
Tema: Um livro com uma aventura em alto-mar
Editora Companhia das Letras, 371p.

Sem se mover mais para trás, o Essex agora ia direto para baixo. A baleia, havendo subjugado o seu estranho adversário, desembaraçou-se das lascas das tábuas estraçalhadas do casco, revestido de cobre, e nadou para longe, para sotavento, e nunca mais foi vista.

Em 20 de novembro de 1820, em algum ponto do Pacífico Sul, o navio de Nantucket, Essex, foi abalroado por uma baleia que nunca mais foi vista depois desse ataque. Esse é o resumo de um dos desastres marítimos mais famosos do século XIX, que inspirou a escrita de Moby Dick, de Herman Melville.
Nantucket era uma ilha norte-americana cuja economia se baseava totalmente na caça às baleias, e por isso se transformou, na época, no maior polo mundial do comércio de óleo, utilizado como combustível para iluminação e como lubrificante nas novas indústrias. Graças a esse mercado, os baleeiros começaram a explorar mares desconhecidos.
O Essex saiu de seu porto no dia 12 de agosto de 1819, numa viagem que o jovem Capitão Pollard Jr. esperava que fosse curta e esperançosa, mas que se revelou um completo desastre e custou a vida da maioria dos homens sob seu comando. As marcas psicológicas deixadas por esse acontecimento na vida dos sobreviventes permaneceu com eles suas vidas inteiras e só acabou vindo a luz a partir dos relatos do primeiro imediato Owen Chase e do jovem marinheiro Thomas Nickerson.

Assim como quando eu vi o filme, esse livro me deixou com sentimentos mistos. Desde a primeira vez que ouvi falar da história da baleia que atacou um navio baleeiro, fiquei apaixonada por essa história. Fui atrás, li Moby Dick, vi a adaptação (filme bem antigo) e na época, eu queria fazer oceanografia e me juntar ao Greenpeace para salvar as baleias dos japoneses. Foi um choque, anos depois, quando descobri que a história de Melville se baseava em uma história real, e é sobre isso de que se trata esse livro, sem dúvida um dos melhores da minha lista de leituras em 2020 (duvido que essa minha observação seja precipitada). A leitura prende do início ao fim, mesmo com as descrições históricas da época, que para alguns pode ser cansativo, mas ajuda muito a entender a importância do comércio do óleo da baleia.
As descrições fornecidas sobre o processamento do óleo podem ser meio nojentas, por falta de palavra melhor, principalmente se você tem em mente a cena em questão do filme, mas também mostram o que faziam com o cadáver da baleia, porque a primeira vista se pensa “se eles estavam interessados no óleo, o que acontecia com o restante do animal?”.
A medida que se vai lendo, se percebe o nível dos problemas pelos quais eles passaram, devido às decisões equivocadas dos “líderes” do navio, devido as ações mal executadas dos próprios homens, ao ponto de que se pensa que o que acontece com o Essex e os extremos a que eles chegam para sobreviver não passam de castigo divino. Foi exatamente essa a sensação que tive quando cheguei nessa parte:

O Essex deixou uma marca permanente na ilha. Quando Nickerson voltou lá anos depois, ainda era uma devastação enegrecida. “Onde quer que o fogo houvesse ardido, não cresceram árvores, mato nem capim”, relatou ele. A ilha Charles foi uma das primeiras das Galápagos a perder sua população de tartarugas. Embora a tripulação do Essex já tivesse cumprido muito bem a sua parte na redução da população mundial de cachalotes, foi ali, naquela minúscula ilha vulcânica, que deram sua grande contribuição para a erradicação de uma espécie animal.

O livro não poupa detalhes sobre o que aconteceu com os ocupantes do Essex depois do naufrágio, apontando as decisões equivocadas de seu capitão, o preconceito reinante (e devo dizer que mesmo disfarçado, era muito presente) na mente dos naturais de Nantucket que coincidiu depois na forma como, coincidentemente ou não, os sobreviventes foram tratados durante os momentos mais cruéis do tempo em que passaram perdidos no mar.

Só um natural de Nantucket, em novembro de 1820, possuía a necessária combinação de arrogância, ignorância e xenofobia para esquivar-se de uma ilha convidativa (embora desconhecida) e optar por uma viagem de milhares de milhas em alto-mar.

É interessante notar que devido as condições do correio na época e ao fato de que uma viagem dessa durava mesmo muito tempo, as novidades sobre o que acontecera com o Essex e seus tripulantes demorou para chegar em Nantucket, então as pessoas não se apavoraram. A volta do capitão Pollard após seu resgate exigiu um relato do acontecido aos donos do navio, mas o assunto meio que se tornou não mencionável devido ao caráter do comércio e a própria fama da cidade em ser o centro do comércio de óleo baleeiro. Owen Chase foi um dos responsáveis pelo relato do ataque e da vida dos sobreviventes no mar, mas ele acaba por omitir muita coisa.


Thomas Nickerson, o tripulante mais novo e camareiro do Essex, anos mais tarde também escreveu um relato sobre o naufrágio e, apesar de conter informações que não estão presentes na narrativa de Owen, ele também adapta o relato aos seus próprios fins.


Resumindo, esse livro é excelente. Um relato vívido e talvez não tão perturbador quanto os citados acima, mas que não fica atrás de nenhum dos dois. Completamente recomendado.

18 de mar. de 2019

Lendo o Brasil: AMAZONAS - Relato de um certo Oriente (Milton Hatoum)

Após vinte longos anos vivendo fora, uma mulher retorna a Manaus, sua terra e onde vive a família em que foi criada. Em tom epistolar, cada um dos seus familiares, a matriarca Emilie e seu marido, Soraya, os irmãos da recém-chegada, relembra os fatos a recém-chegada.


Uma volta ao passado, é disso que se trata esse livro. Geralmente quando pensam na Amazônia, pensam logo em cidades coberta de florestas, mas o que Milton nos apresenta é os contrastes das versões antiga e moderna de uma cidade. O livro é curto, um dos motivos que me faz escrever uma resenha tão curta, e confesso que fui e voltei na leitura várias vezes para entender melhor a história. Apesar disso, eu recomendo.

Editora Companhia das Letras.
152 páginas.

11 de mar. de 2019

Middlesex (Jeffrey Eugenides) – DLS 2019


Título: Middlesex
Autor: Jeffrey Eugenides
Mês: Março
Tema: Um livro ganhador do prêmio Pulitzer
Editora Companhia das Letras, 576p.

Cal Stephanides, nascido Calíope Helen Stephanides, vive em Berlim. Ao relembrar sua história, percorre os caminhos de três gerações de sua família, quando seus avós se mudaram do vilarejo onde moravam nas encostas do Monte Olimpo para Detroit, nos Estados Unidos. Na época da Lei Seca, a cidade estava em pleno desenvolvimento até os protestos da população negra obrigarem a família a se mudar pra Michigan, quando ela tinha doze anos. Criada como menina, Cal desde cedo desenvolve um interesse em meninas (ela não conhece a própria anatomia). A medida que cresce, conhece pessoas que a ajudam a entender a si mesmo.

Nasci duas vezes: primeiro como uma bebezinha, em janeiro de 1960, num dia notável pela ausência de poluição no ar de Detroit; e de novo como um menino adolescente, numa sala de emergências nas proximidades de Petoskey, Michigan, em agosto de 1974.

Esse livro é bem diferente e nada do que eu imaginava que seria quando vi o título e a capa. Mesmo que os acontecimentos sejam narrados com lentidão, a história não deixa de chamar atenção, mas uma observação: por causa do tema, o leitor precisa ter a mente aberta. Milton, Tessie, Desdêmona, Esquerdinha, o livro está lotado de personagens interessantes, além, obviamente, do próprio Cal. É muito difícil fazer uma resenha de um livro assim sem sair contando logo a história inteira. Eu recomendo porque gostei de como o personagem a própria história como se fosse a de outra pessoa.

30 de jul. de 2018

198 livros: SOMÁLIA - Nômade (Ayaan Hirsi Ali)

O primeiro livro sorteado para o desafio é da SOMÁLIA. Para minha surpresa, eu já tinha ouvido falar de Ayaan Hirsi Ali, mas ainda não tinha lido nada dela. Tentei conseguir Infiel, seu primeiro livro, mas não achei então escolhi Nômade. Em Infiel, ela fala sobre sua infância e adolescência vivendo sob o rigor do islamismo, passando de país para país: Somália, onde nasceu, Arábia Saudita, Etiópia e Quênia até chegar na Holanda. Foi lá que Ayaan se tornou uma das principais críticas do islã e começou a defender o direito das mulheres.


Em Nômade, ela também fala sobre sua vida desde o nascimento, passando pela Holanda até chegar nos EUA, para onde foi em busca de uma vida nova, longe dos que passaram a ameaça-la de morte. Cada capítulo de seu livro é “dedicado” a um parente. Ela relata seu relacionamento com seu pai, sua mãe, sua avó, seu irmão, seus primos, e cada relato é de uma sensibilidade única. Ayaan fala de quando fugiu do casamento arranjado pelo seu pai, de como ficou sua vida após a família renegá-la quando ela renunciou ao islã depois do 11 de Setembro de 2001, e sua reconciliação anos mais tarde.

“As feministas do Ocidente devem transformar o drama da mulher muçulmana em sua própria causa.”

As melhores partes do livro são as opiniões e a visão de Ayaan sobre o feminismo e o cristianismo, os quais ela convoca para ajudar imigrantes muçulmanos a superar os mesmos obstáculos pelos quais ela passou em sua busca por nova vida no ocidente. Gostei muito deste livro e estou buscando agora Infiel, que parece, pelas resenhas que li, dar enfoque a mais detalhes de sua infância e adolescência.

Editora Companhia das Letras.
392 páginas.