14 de out. de 2026

Os ovos de Fabergé (Tony Faber) - DAL 2026



Título: Os ovos de Fabergé: a história das obras-primas que sobreviveram ao fim de um império 
Autor: Tony Faber
Mês: Outubro 
Tema: Letra T
Editora Record, 378p.

Para os cristãos ortodoxos russos do século XIX nenhuma data do calendário religioso era mais importante do que a Páscoa. 

Por isso, os russos trocavam ovos, e essa tradição profundamente arraigada levou o novo czar a presentear a esposa um ovo esmaltado que sempre trazia uma surpresa dentro.
O primeiro ovo Fabergé encomendado por um czar foi o Ovo Galinha, de Alexandre III para sua esposa, a czarina Maria, como presente de Páscoa em 1885. Mesmo após sua morte em 1894, seu filho Nicolau continuou a tradição, e Fabergé, além de criar o ovo de Páscoa da nova czarina Alexandra, manteve as criações para Maria.
Toby Faber faz um belo apanhado da vida de Carl Fabergé, que aos 26 anos estava pronto para assumir os negócios da família. Sua educação meticulosa sobre administração de negócios e joalheria o levaram a ser apontado como um mestre da Segunda Guilda Mercantil de São Petersburgh e atrair a atenção da família imperial russa.

O Ovo Galinha


A partir daí, e pelos próximos anos seguintes, as czarinas receberiam seus ovos de Páscoa. A fama de Farbegé se espalha, ao mesmo tempo em que suas criações evidenciam a discrepância entre a vida dos czares e do povo. Com a Revolução Russa de 1917, os presentes acabaram.
De maneira bastante detalhada, Toby Faber relata o trajeto dos ovos: sumidos durante a Revolução, como alguns reapareceram depois, às vezes escondidos sem despertar interesse, outras vezes no meio de negociações entre colecionadores, até finalmente os 23 restantes dos 50 ovos existentes finalmente retornarem para a Rússia como símbolo histórico.

Quando se fala em ovos Fabergé, a primeira coisa que vem a cabeça, pelo menos para quem conhece um pouco de história, são objetos de luxo cravejados de pedras preciosas feitos de ouro, que um dia foram parte do tesouro dos Romanov.
Esse livro fala da criação da empresa Fabergé, de como o trabalho de Carl no Museu Armitage o levou a participar de uma exposição em Moscou de artefatos russos e assim chamando a atenção dos czares (em 1 de maio de 1885, o joalheiro recebe do imperador o título de Fornecedor da Corte Imperial e a permissão de usar o brasão do estado na marca de sua loja).
Além dos ovos, a firma que ainda levava o nome de seu fundador Gustav Fabergé também criava prataria, peças decorativas, animais entalhados, entre outras coisas, com clientes que faziam parte da classe média emergente aos pontos mais altos da sociedade.

Saleiro em prata


A especialização de Fabergé em suas criações mostravam objetos artisticamente e monetariamente acima da média, mas também mostravam o quanto a realeza estava longe da realidade da população, pois essa época foi marcada por doenças e crises que não foram bem avaliadas e acabaram sendo lidadas de maneira incompetente, trazendo a tona as bases para a Revolução. 
Achei interessante o autor salientar que a mudança de czar poderia trazer mudança também para Fabergé, mas Nicolau era despreparado e só sabia imitar o pai, então ele se estabelece como um autocrata, as reformas precisam esperar seu momento de luz, mas a vida de Fabergé continua a mesma. Mesmo assim, Faber aponta de maneira explicativa que mesmo sendo considerados objetos espalhafatosos, a fama de seu criador se espalhou pela Europa e além. Ao mesmo tempo, as agitações políticas que aconteciam na Europa levaram ao hiatus de dois anos na entrega dos ovos (1904, 1905), mas não durante os anos da I Guerra Mundial: o Ovo Cruz de São Jorge de Maria e o Ovo Militar de Aço de Alexandra seriam os últimos presentes de Páscoa que Nicolau encomendaria.
A desconfiança em relação a Alexandra (nascida alemã e parcialmente justificada pela própria cegueira em relação a Rasputin e a história pessoal do monge com sua família), o descontentamento com as perdas da guerra e com o governo czarista acabaram atingindo também Fabergé, que se preparou como pôde. A Revolução chega, Nicolau abdica em seu nome e de seu filho, seu irmão Miguel também abdica e assim acaba a dinastia Romanov. 
Carl Fabergé tem sua firma fechada em novembro de 1918, mas ele não chega a ver isso pois já havia fugido. Sua família também consegue sair da Rússia e dois anos depois, ele falece sem saber o que havia acontecido com suas criações, que viraram parte do saque dos bolcheviques e a maior parte continua desaparecida até os dias de hoje.
Dois tópicos que o livro aborda muito bem: o quanto Fabergé conseguiu se atinar as acontecimentos familiares e aos gostos das czarinas para elaborar objetos que realmente agradassem; e o fato desse livro trazer uma linha cronológica bastante detalhada sobre o paradeiro e destino dos ovos imperiais só mostra o nível de pesquisa que o autor fez, e sinceramente, essa é a melhor parte do livro. Além disso, no fim tem uma lista dos ovos e a quem eles foram presenteados. Definitivamente uma das melhores leituras do ano.

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